Luto infantil: como falar de morte com as crianças?

Opinião
Guaíra, 12 de abril de 2017 - 08h04

Com certeza, esse é um tema muito delicado e difícil de ser falado, em qualquer época da nossa vida, e com qualquer pessoa. Se é difícil para nós, adultos, imagine para as crianças. Como todanova experiência, pode ser bastante confuso e assustador para as crianças, ainda mais em caso de morte por acidente. Quando acontece, seja ela com o bichinho de estimação ou com um ente querido, as crianças precisam de todo nosso apoio e, principalmente, de nossa sinceridade, paraque haja confiança.

Antes de começar a explicar, temos que ter claro em nossa mente o que é amorte para nós mesmos, e pensar em que realmente acreditamos, porque sóassim poderemos responder aos questionamentos delas, que vão ser muitos.Se quiser, vale explicar também que nem todos pensam exatamente como opapai e a mamãe, e dar versões de outras religiões.

Devemos entender também que o luto é um processo, e não um evento. Issoquer dizer que demanda tempo, e cada criança precisará de um tempodiferente para superar sua perda. Pressionar a criança a voltar a ter“vida normal”, sem dar o tempo necessário, implicará em outrosproblemas ou reações negativas.

Muitos pais têm dúvida de quando começar a falar sobre o assunto ouentão preferem nem falar. Deixar de falar não é a melhor solução, poisa morte é algo que faz parte da vida de todos nós. Ela está nas plantas,nos bichinhos, nos amigos e familiares. A melhor época para falar sobre oassunto é quando a situação acontecer, e essa situação pode ser amorte de alguém querido ou o questionamento da criança sobre o porquê aflorzinha do vaso morreu. A criança não irá se beneficiar de “nãotocar no assunto” ou “tirar isso da cabeça”. Nunca fuja do assuntoquando a criança quiser conversar sobre o tema.

Entre 5 a 7 anos, a criança começa a entender melhor como relacionar suavida com o mundo. Então, automaticamente, ela conseguirá relacionar amorte com algo que ela perdeu, como um brinquedo, por exemplo.

A morte faz parte do ciclo da vida. Uma ótima maneira de preparar seufilho de maneira simples é ensiná-lo desde pequeno com exemplospráticos. Plante uma semente e vá mostrando como ela nasce, cresce emorre. Lembra daquele feijãozinho plantado no algodão que todos nósfizemos na escola? Pode ser um ótimo aliado neste momento. O maisimportante desta experiência é mostrar que esse processo é natural e queindepende de ele ter cuidado direitinho da planta.

Há três itens em relação à morte que a criança precisa entender: Tudo que é vivo vai morrer um dia; Quando morre não volta mais; Depois que morre, o morto não sente dor, não corre, não sente medo, não dorme, não pensa, não age mais.

Crianças até 3 anos não conseguem perceber claramente isso, mas entendemque não brincarão mais com a tia, ou que o avô não a buscará mais naescola. As mais velhas percebem que a morte é algo natural, masprecisarão de explicações concretas para entendê-la. Só a partir de 12anos é que a criança consegue entender completamente todo o processo.

Nunca associe morte com sono! Para contar à criança que alguém morreu, omelhor é não mentir e nem contar historinhas do tipo: “ele dormiu parasempre”, “descansou”, ou “fez uma longa viagem”. As criançasentendem as frases exatamente como são ditas, e isso pode causar confusãona cabecinha delas. Podem achar que a vovó que morreu está apenasdormindo e vai acordar a qualquer momento e chegar em casa, ou que todomundo que viaja nunca mais volta, ou quando o papai chegar e disser queestá cansado, ela vai achar que ele vai dormir e morrer. Aliás, aprópria criança pode começar a ter medo de dormir e não acordar mais.
Se disser que “fulano virou uma estrelinha”, a criança vai acreditare, quando olhar para o céu, irá achar que todas as estrelas são pessoasmortas.

Se um ente querido estiver muito doente a criança deve saber o que estáacontecendo. Por mais nova que ela seja, irá perceber o clima da casa.Explique que a pessoa está doente e que é grave. Se caso a pessoa morrer,nunca chegue para a criança contando o que aconteceu de repente. Comece aconversa relembrando do ciclo da vida da plantinha, daquele feijãozinhoque vocês plantaram. Encare como uma discussão em aberto, e não como umdiscurso! Dê espaço para a criança tirar as suas dúvidas. Comece comfatos básicos, descubra o que a criança sabe e pensa, para decidir oquanto mais de informação ela tolera. Nem todas as crianças suportammuitos detalhes. Mais uma vez: a criança precisa de apoio e sinceridade.

Nunca esconda seus sentimentos. Não queira passar a imagem de que estátudo bem. Ao contrário, exponha suas emoções, pode chorar e dizer queserá difícil para todos da família. Isso fará a criança perceber que oque ela está sentindo é normal. Demonstre que, como a criança, vocêtambém sente saudades e está sofrendo, e deixe que ela fale sobre os seus
sentimentos. Garanta que ela não está sozinha, e sempre haverá alguémpara cuidar dela, principalmente se a perda for de um dos pais. E tenhapaciência, pois é possível que ela pergunte as mesmas coisas váriasvezes.

É natural que a criança apresente mudanças de comportamento após anotícia da morte de alguém com quem convive. Além do choro e da raiva,pode começar a ir mal na escola, ficar hiperativo ou fazer xixi na cama.Considere ajuda da escola e até de um psicólogo. É importante que acriança sinta que tem apoio e atenção também dos colegas e professores.Outra dúvida comum é se a criança deve ir a velórios ou enterros. Nãose deve forçar, mas a criança pode se beneficiar de participar junto comos adultos. Os rituais servem para que todos vivenciem melhor a despedida,inclusive os pequenos. Os especialistas concordam que velórios e enterrosnão traumatizam as crianças. Explique muito bem antes como é o velórioou o enterro, e pergunte se ela quer ir. A criança precisa saber antes queserá triste, e que muitas pessoas estarão chorando. Não decida pelacriança que ela deve ficar de fora, mas também não a obrigue a ir se elanão quiser, e não deixe que se sinta culpada se não for.

O mais importante de tudo é sempre agir com honestidade, com a verdade,para que seu filho possa sempre confiar em você. Se não souber respondera alguma pergunta, não tem nenhum problema em dizer “não sei”. Buscaras respostas junto com seu filho poderá uni-los ainda mais. Quandoprocurar ajuda profissional? Em casos de raiva ou hostilidade excessivas,ou quando a criança não expressa nenhum luto, ou em casos de depressãoou ansiedade que interferem nas atividades diárias, durando semanas oumeses.


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Dr. Carlo Crivellaro

Pediatra com Título de Especialista em Pediatriapela Sociedade Brasileira de Pediatria; Membro da Sociedade Brasileira dePediatria; e Membro da Highway to Health International Healthcare Community

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