Camila Recrosio
Mãe de gêmeos, especialista em desenvolvimento humano e empresária.
Estamos preparando nossos filhos para a vida ou tentando impedir que a vida os contrarie?
Tenho refletido sobre como, em nome do amor e da proteção, muitos adultos passaram a intervir em situações que poderiam se transformar em experiências importantes de aprendizagem. Não me refiro a deixar crianças desamparadas ou a exigir delas uma maturidade que ainda não possuem. Refiro-me à dificuldade que temos de permitir que enfrentem pequenas frustrações e reconheçam as consequências de suas atitudes.
Uma criança esquece o material escolar e, antes mesmo que possa pensar em uma solução, alguém corre para entregá-lo. Um adolescente não se prepara para uma prova e a primeira reação da família é questionar o professor. São situações comuns, mas que merecem uma pergunta: o que nossos filhos aprendem quando assumimos por eles responsabilidades que já poderiam exercer?
É aqui que entra a autorresponsabilidade. Não se trata de atribuir culpa por tudo o que acontece. Existem injustiças, falhas dos adultos e circunstâncias que não estão sob nosso controle. Trata-se de reconhecer a própria participação nos acontecimentos e compreender
que nossas escolhas, assim como nossas omissões, produzem consequências.
Isso se aprende aos poucos. Na infância, começa com os combinados, a organização dos pertences, o respeito ao outro e a possibilidade de reparar um erro. Na adolescência, ganha outra dimensão: amizades, estudos, redes sociais e decisões que exigem discernimento. A liberdade que tanto desejam precisa caminhar junto com a responsabilidade que ela exige.
Percebo uma contradição na maneira como educamos. Queremos filhos seguros, independentes e capazes de decidir, mas frequentemente antecipamos suas dificuldades, respondemos por eles e resolvemos o que poderiam tentar resolver. Confundimos apoio com substituição. Apoiar é estar presente, orientar e oferecer recursos. Substituir é impedir, ainda que sem intenção, que desenvolvam os próprios recursos.
E não podemos falar de autorresponsabilidade olhando apenas para as crianças. Que exemplo oferecemos quando justificamos nossos erros, transferimos responsabilidades ou procuramos culpados antes de examinar nossas atitudes? Os filhos não aprendem somente com nossos discursos. Aprendem, sobretudo, observando como reagimos quando algo não acontece como esperávamos
Há uma pergunta que considero valiosa para qualquer idade: diante do que aconteceu, qual foi a minha participação e o que posso fazer de maneira diferente? Ela não elimina o que o outro fez, nem torna aceitável uma injustiça. Apenas nos devolve a possibilidade de agir sobre aquilo que depende de nós.
Educar exige presença, limites, escuta e coragem para não fazer pelos filhos tudo aquilo que eles já podem aprender a fazer. Não precisamos deixá-los enfrentar o mundo sozinhos. Precisamos acompanhá-los sem ocupar permanentemente o lugar que é deles.
Aos dezoito anos, ninguém se torna responsável por decreto. Essa formação começa muito antes, nas pequenas escolhas de todos os dias. E talvez uma das maiores demonstrações de cuidado seja justamente permitir que nossos filhos descubram, com orientação e segurança, que são capazes de responder pela própria vida.

