
O maior engano da paternidade moderna é confundir provisão com presença. Muitos homens se dedicam intensamente ao trabalho acreditando que, ao garantir conforto e oportunidades, estão cumprindo seu papel. Mas nenhum sucesso fora de casa compensa a ausência dentro dela. E não falo apenas do pai que viaja ou trabalha demais, falo do pai que está no mesmo sofá que o filho, com os olhos presos na tela do celular. Podemos chamar esse fenômeno de abandono virtual, e ele talvez seja a forma mais comum de negligência dos nossos dias.
Ser pai hoje é, antes de tudo, estar presente de verdade. É olhar nos olhos, ter tempo sem pressa, conhecer os medos e os sonhos de cada filho. É abençoar com palavras, dizer em voz alta o que admiramos neles, e não apenas apontar o que precisam corrigir. É posicionar-se, impor limites com afeto, entender que a neutralidade, tão útil em outras áreas da vida, na criação dos filhos costuma ser apenas outro nome para omissão.
É também preparar, e não apenas proteger. Num mundo de satisfação imediata, uma das maiores heranças que um pai pode deixar é ensinar o filho a lidar com a frustração, a esperar, a ouvir um “não”. Quem não aprende isso em casa sofre com ele lá fora. E isso não se faz sozinho: criar bem é tarefa de parceria, com a mãe e toda a rede de afeto ao redor da criança.
Ser pai também é pensar no que deixamos. Não na herança, os bens que se gastam e se dividem, mas no legado: o caráter, os valores e os exemplos que permanecem em quem nossos filhos se tornam. O maior patrimônio de um filho é a pessoa que ele será.
E há uma verdade que gostaria que todo pai entendesse: nunca é tarde para mudar. A forma de criar pode ser revista, ajustada e reaprendida em qualquer fase da vida. Reconhecer um erro não é fraqueza, é o primeiro passo para reconstruir vínculos.
Não existe pai perfeito, e essa cobrança só nos paralisa. Existe o pai possível, aquele que erra, aprende e recomeça. Neste Dia dos Pais, mais do que uma homenagem, fica um convite: troque a culpa pela presença. Seus filhos não precisam de um pai impecável. Precisam de um pai por perto.
Fausto Flor Carvalho é pediatra, psicanalista e autor de “Bom pai, mau pai” e “Pai sem sacrifício”

