Ogum e Nós

Opinião
Guaíra, 23 de abril de 2019 - 09h24

Nossa sociedade é mista. Um drama teatral no seu sentido mais profundo que transita da tragédia à comédia num piscar de olhos em todos seus aspectos: culturais, econômicos, educacionais, religiosos, sociais, etc. Esta disparidade por si só é um agravante na tentativa de entender melhor o Brasil em que vivemos.

Quando direcionamos nosso olhar para questões como raça, etnia, preconceito, racismo e intolerância, somos (a maioria), geralmente, tomados por uma pseudo cegueira cerebral. Nossos olhos estão vendo, a visão é clara e lúcida, porém, nosso cérebro parece querer rejeitar a realidade. É difícil aceitar! Muitos escolhem continuar presos à Matrix…

A TERCEIRA SEMANA DE OGUM em Guaíra em 2019, é uma destas raras oportunidades que temos de tomar a pílula vermelha. Com intuito de manifestar, valorizar e integrar as tradições culturais de matriz africana, a semana cultural de Ogum representa um verdadeiro baluarte para a cidadania no sentido mais pleno. Entende-se por ”matriz africana” as verdadeiras origens de diversas formas e aspectos multiculturais que ajudaram a construir nossa sociedade, porém, ainda não reconhecida pelo senso comum.

Segundo o IBGE, até 2010, os brancos representavam mais da metade da população brasileira. A partir da pesquisa realizada entre 2012 e 2016, a participação percentual dos brancos na população caiu para 44%, enquanto a participação dos pardos e negros subiu para quase 55% do total de brasileiros. Será que houve uma multiplicação espontânea das raças com DNA africano? Será que os brancos estão morrendo mais do que os pretos e pardos? Qual é a explicação?

Apesar do seu enorme contingente populacional, o Brasil segue a tendência mundial de declínio da taxa de crescimento. Não cabem mais as retrógradas e ultrapassadas respostas racistas e preconceituosas. Nota-se é um ”redescobrimento” um verdadeiro ”auto reconhecimento” de que somos mistos, miscigenados ou, como dizem ”tudo junto e misturado”. Não dá mais para sobreviver na ilusão da separatividade, somos todos um, somos seres humanos.

Ogum é uma personagem da NOSSA história. Não é um mero deus distante da África… Aliás, aonde está essa África? Será que a milhares de quilômetros? Será que num passado longínquo? Ou será que após 500 anos de tráfico negreiro, sequestros e genocídios, escravismo, exploração do trabalho negro e miscigenação, a mãe África está sedimentada em todas as estruturas sociais do Brasil atual?

Daí a justificativa do 23 de Abril ser comemorado em nosso município como DIA de OGUM (Lei 2.786/2017), sincretizado com São Jorge, somos mistos. Somos Um. Enquanto pautarmos nossas ações nas diferenças não haverá progresso. Só evoluímos quando nos pautamos naquilo que somos semelhantes. Ogum é Orixá, é Santo, é o Espírito guerreiro de uma gente que resiste, é a representação da união dos povos para abertura de um novo caminho: Fraternidade!


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Gustavo Monson

Gustavo Monson é Presidente da Comissão Organizadora da Terceira Semana de Ogum em Guaíra – 2019

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