Se o seu voto não valesse nada…

Opinião
Guaíra, 4 de outubro de 2026 - 08h03

Hoje é dia de eleição.

Enquanto você lê este artigo, milhões de brasileiros estão saindo de casa para escolher presidente, governador, senadores e deputados. Outros ainda estão decidindo se irão. E haverá também aqueles que simplesmente resolverão ficar em casa.

É justamente com estes últimos que queremos conversar.

Nos últimos tempos cresceu um discurso perigoso, embora aparentemente inocente. “Não adianta votar.” “É tudo igual.” “Nada muda.” “Melhor ficar em casa.” São frases repetidas tantas vezes que começam a ganhar aparência de verdade.

Mas existe uma pergunta simples capaz de virar esse raciocínio do avesso.

Se o seu voto realmente não tivesse importância, ninguém precisaria convencê-lo a ficar em casa.

Pense nisso.

Ninguém desperdiça energia tentando inutilizar aquilo que já é inútil. Ninguém precisa convencer você a abrir mão de algo que não produz consequência alguma. Por isso, antes de aceitar a ideia de que votar não vale a pena, talvez seja interessante perguntar: quem ganha quando você desiste de participar?

Não é preciso procurar conspirações ou imaginar algum grande plano escondido. A matemática eleitoral é bem mais simples.

A eleição acontecerá com você ou sem você.

Os cargos serão preenchidos. Os eleitos tomarão posse. Decisões serão tomadas. Impostos continuarão sendo cobrados. O dinheiro público continuará sendo administrado. Leis serão aprovadas, modificadas ou rejeitadas. E tudo isso continuará atingindo sua casa, seu trabalho, sua empresa e sua família.

Você pode decidir ignorar a política.

A política não terá a mesma opção de ignorar você.

Existe uma diferença importante entre estar decepcionado e desistir. O eleitor não precisa estar apaixonado por candidato algum para participar de uma eleição. Democracia não é casamento. Você não está escolhendo alguém para admirar pelo resto da vida. Está escolhendo pessoas que receberão poder temporário para tomar decisões em nome da sociedade.

E justamente por isso deveriam ser observadas, comparadas e cobradas.

Hoje, cada brasileiro encontrará diante da urna diferentes possibilidades. Pode escolher candidatos. Pode votar em branco. Pode anular. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, votos brancos e nulos não entram no cálculo dos votos válidos e não provocam, por si só, uma nova eleição.

Mas existe algo ainda mais simples.

Quem não comparece deixa de participar da escolha.

Isso não significa que seu voto seria automaticamente capaz de decidir sozinho uma eleição. Evidentemente não seria. Mas eleições são justamente a soma de milhões de decisões individuais. E cada pessoa que se retira dessa soma aumenta, proporcionalmente, o peso daqueles que permaneceram nela.

É aí que surge a resposta para a pergunta que muita gente talvez faça hoje: afinal, a quem interessa que você não vote?

Não existe um único beneficiário antecipadamente definido. Interessa a qualquer grupo político capaz de levar seus próprios eleitores às urnas enquanto eleitores de outros grupos permanecem em casa. A ausência de um não apaga o voto do outro.

Ao contrário.

Deixa-o relativamente mais importante.

Talvez por isso seja tão perigoso transformar desencanto em indiferença. Criticar políticos é saudável. Desconfiar de promessas também. Fiscalizar governos é obrigação de qualquer sociedade madura. Mas abandonar a decisão não castiga necessariamente aqueles com quem estamos decepcionados.

Pode apenas facilitar a vida deles.

Hoje você não precisa votar com entusiasmo.

Pode votar desconfiado.

Pode votar exigindo mais.

Pode votar pensando no que considera menos ruim, mais adequado ou mais coerente com aquilo em que acredita.

Mas há algo que vale recordar antes de decidir permanecer no sofá.

A eleição não será suspensa porque você desistiu dela.

Às 17 horas, as urnas serão encerradas. Os votos serão contados. E o país continuará sua caminhada com as escolhas feitas por quem resolveu participar.

Talvez então a pergunta deste domingo não seja apenas em quem votar.

Talvez exista uma pergunta anterior.

Quem você deseja que tome essa decisão: você ou os outros?

Porque, no final, a democracia guarda uma ironia difícil de ignorar:

Se o seu voto realmente não valesse nada, ninguém precisaria convencê-lo a ficar em casa.


TAGS:

Se o seu voto não valesse nada

Se o seu voto não valesse nada

Ver mais publicações >

OUTRAS PUBLICAÇÕES
Ver mais >

RECEBA A NOSSA VERSÃO DIGITAL!

As notícias e informações de Guaíra em seu e-mail
Ao se cadastrar você receberá a versão digital automaticamente