Tradições Africanas

Opinião
Guaíra, 27 de agosto de 2015 - 13h33

Em sua origem, a Umbanda era bem diferente de como a conhecemos hoje. Porém, algumas características fundamentais permanecem. Pesquisadores encontraram registros dos primórdios do culto que atualmente acontece dentro da Religião Umbandista datados de mais de seiscentos anos de idade, ou seja, durante o período da chamada África pré-colonial; quando o continente africano ainda não havia sido invadido pelos brancos europeus e sua população ainda preservava suas tradições e cultura intactas. A região conhecida como África Subsaariana, “abaixo” do deserto do Saara, que compreende a extensão territorial que vai do Senegal até Angola, representa a principal fonte das populações negras massacradas ou aprisionadas pelo tráfico negreiro para servir de mão-de-obra escrava no Brasil. Essas populações eram formadas por diversas etnias que se fixavam ao longo das regiões de savana, em que a caça e a agricultura se mostravam mais viáveis. Essas aglomerações de aldeias sofriam um constante deslocamento populacional motivado por conflitos tribais, desastres naturais ou pelo próprio crescimento demográfico. Apesar das mudanças constantes e diversidade cultural o que nota-se é uma origem única que, de alguma forma, permeava todos estes povos em questão: a língua mater. Ou seja, todos pertenciam ao mesmo tronco lingüístico conhecido como Banto. Fato este, que possibilitou o contato e junção de várias tribos resultando na formação dos primeiros Estados territoriais desta parte do continente africano. Essa experiência política mais complexa permitiu o desenvolvimento de um articulado comércio de gêneros agropecuários e ao mesmo tempo, o desenvolvimento de práticas comuns que marcaram os costumes destes povos, inclusive sua crença e religião. Um exemplo dessa questão pode ser claramente observado nas concepções que regiam (e regem ainda) a relação dos indivíduos com a Natureza. Em alguns casos as manifestações naturais eram temidas e vistas como uma conseqüência direta do comportamento dos deuses. Diversos rituais eram desenvolvidos com o propósito de apascentar e ou apaziguar tais forças. Verifíca-se, igualmente, a relação compreendida entre os diversos elementos da natureza – animais, vegetais, minerais – como formas ou resultados da manifestação divina; que, além disto, servia (e serve) ainda como fatores determinantes dos comportamentos, das virtudes, dos defeitos e até mesmo do destino do ser humano. É inegável, portanto, o quão é fundamental para as crenças de origem Banta a preservação e veneração à Natureza. As forças naturais e seus quatro elementos primordiais – terra, ar, fogo e água – formam o escopo que sustenta as bases religiosas da Umbanda. Basta qualquer leitura sobre o panteão dos deuses (Orixás) africanos para identificar e reconhecer a Mãe Natureza como principal fonte de inspiração e conduta para toda sua ritualística e misticismo. Esse quadro se completa e se concretiza, enquanto religião sagrada, com a união do chamado “quinto elemento”, ou seja, a fé. É a partir do conhecimento e respeito à Natureza somados à força da fé que realmente a Umbanda se estabelece no plano terrestre. Uma vez compreendida a Natureza como base crucial para a religiosidade dos negros Bantos, veremos que o segundo aspecto, porém não menos importante, na formação da Umbanda sagrada é a prática, dentro de sua ritualística, da comunicação com os espíritos. Assim como diversas outras doutrinas religiosas ou filosóficas, a Umbanda também prega a sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico, e, principalmente na possibilidade de se comunicar com eles, casual ou deliberadamente, via evocações ou espontaneamente. Ou seja, o espiritismo, termo originalmente utilizado para nomear especificamente as idéias e ensinamentos codificados pelo pedagogo francês Allan Kardec em 1857, é inerente ao culto que acontece dentro da Umbanda. Obviamente que o espiritismo de Umbanda ocorre de forma e em situações bem diferentes em relação à prática Kardecista, que por sinal, aliás, muito temos a agradecer e aprender, principalmente devido a sua sistematização do estudo dos espíritos sob a luz de métodos científicos. Não obstante, como foi dito acima, pesquisadores comprovaram que a comunicação com espíritos dos antepassados desencarnados dentro das tradições religiosas dos negros Bantos no continente africano é quase milenar. No próprio território brasileiro temos prova disto; a legendária Casa Branca do Engenho Velho ou Ilê Iya Nassô, em Salvador, Bahia, fundada no século XVIII, cujo registro foi efetuado bem posteriormente em 1830, já praticava o espiritismo de Umbanda, ou seja, bem antes do código de Kardec. As origens destas práticas estão localizadas em regiões que hoje correspondem aos territórios de Angola e do Congo principalmente; no culto aos ancestrais reais (pessoas da família), os negros bantos podiam manter contato com seus mortos. Daí, uma das explicações, para o surgimento, após a Abolição, das entidades chamadas “preto-velhos”, os “cacurucaios” (do dialeto Quimbundo kikulakaji = ancião) que, nada menos, representam os espíritos dos antepassados bantos, como expressamente indicam a maioria de seus nomes simbólicos, fazendo referência às regiões africanas, encontrados nos terreiros de Umbanda até hoje: Vovó Cambinda, Vovô Congo, Pai Guiné, Pai Joaquim de Angola, Mãe Maria Conga, etc. Assim como, encontra-se nos relatos dos tempos sofridos da escravidão, a alusão a sua moradia mítica “Aruanda”, misteriosa e adorável região de paz e luz que se transformou, para o negro banto de antigamente e para o umbandista de hoje em dia, na chamada Terra Prometida; que historicamente nada mais é que o continente africano idealizado e livre, cujo maior símbolo é a cidade de Luanda, capital da hoje República Popular de Angola. Axé!


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Gustavo C. M. Souza

bacharel em história pela USP e dirigente do Centro Espírita de Umbanda Ogum Sete Espadas Para saber mais: Livro – Umbanda não é macumba, autor Alexandre Cumino, Ed. Madras; Blog – www.ceudeogumseteespadas.blogspot.com; www.facebook.com/jorge.guerreira

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