Orlandinho Gutierres e sua dedicação e fé ao Pindoba

Orlando Francisco da Silva, mais conhecido por Orlandinho Gutierres, é um homem de muitas capacidades: exímio marceneiro, já trabalhou com desfiles para promover a beleza guairense, fez decorações e também é um apaixonado pela história do Pindoba

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Guaíra, 11 de fevereiro de 2019 - 17h01

Como surgiu este ”Gutierres” na sua vida?

Surgiu na época em que eu trabalhava na metalúrgica Rima. Fomos prestar um serviço para a construtora Andrade Gutierres e gostei desse “Gutierres”. Em 1990, ajudei o nosso saudoso amigo Nei Tosta a promover o concurso de Miss Guaíra, naquela oportunidade fomos dar uma entrevista para a TV Record e pensei: “Orlando Francisco da Silva é muito pobre”. Por isso, inventei esse nome artístico, o que acabou “pegando” e, agora, todos me conhecem como Orlandinho Gutierres.

 

É guairense?

Sou de Guaíra, estudei no Enoch até o oitavo ano. Trabalhava na metalúrgica Rima, estava cansado de trabalhar com solda, fui trabalhar na cidade dos meninos, em uma marcenaria que tinha lá na antiga Nestlé; comecei a trabalhar e depois montei minha marcenaria e estou até hoje no ramo.

 

Como começou essa paixão pela vida do Pindoba?

Comecei a ir à capela do Pindoba e senti uma paz muito grande. Olhando aquela paz lá, fazendo meus pedidos e tudo dando certo, comecei a ser devoto do Pindoba. A minha avó, que nasceu em 1900, contava uma história – não sei se é a verdadeira – de que o Pindoba foi um escravo, que viveu em Morro Agudo (SP) e que falavam que ele roubou do fazendeiro, que teve um namoro com a mulher desse fazendeiro. Na verdade, existem diversas versões a respeito disso, mas só se sabe que ele foi enterrado vivo até o pescoço. O porquê de ter sido enterrado tem umas três ou quatro versões. O único fato é que ele foi enterrado até o pescoço. O fazendeiro deixou ele agonizando de fome e sede. Contam que o fazendeiro ia lá colocar água e comida longe dele, e quando voltava no outro dia não tinha nada. Às vezes os bichos iam lá e comiam e bebiam. No outro dia, colocavam de novo, retornavam novamente e não tinha nada. Minha avó fala que ele tinha um anjo da guarda tão forte que pegava aquela comida e água e o alimentava, por isso, ele ficou vários dias enterrado até o pescoço e não morreu. Com isso, o fazendeiro ficou com raiva e passou melado na cabeça dele, assim, as formigas o mataram.

 

Por isso a população leva água na Capelinha?

Hoje, existe esta tradição, que as pessoas levam água e um prato de comida e isso já faz muitos anos, então, fico sem saber em quem acreditar, mas acho que essa versão dos bichos terem comido as comidas à noite é verdadeira, porque atualmente levam a comida lá e vão os macaquinhos e cachorros e no outro dia a comida não está lá. Porém, alguns dizem que ele se transforma em um animal e vai lá comer a comida. E o interessante é que lá não tem formiga, você coloca um prato de comida lá, se o bicho não comer a formiga não come. Isso já presenciei, porque não vou apenas no dia 20, mas sim o mês inteiro. Vou lavar a capela, vejo se está tudo certinho, vamos lá cuidar. Um dia cheguei lá, fui levar comida, sentei e um Tiú veio comer na minha mão.

 

Hoje há uma romaria de muitas pessoas?

Ali vão muitas pessoas, não apenas no dia 20, mas no ano inteiro. Gosto muito de ir no domingo à tarde, porque não tem muito o que fazer, vejo as pessoas chegando. Às vezes vou de bicicleta e fico ali sentado sozinho e começa a chegar uma família, depois outra. Então, acompanho tudo isso.

 

Como foi essa última edição da romaria?

Foram menos pessoas a pé do que no ano passado, mas calculei mais ou menos uns 350 visitantes a pé. Só que foi muita gente de carro para participar da missa, aquelas que são mais de idade e não aguentam mais andar. Por causa do sol, as pessoas começam a ir às duas da manhã, rezam, fazem seus pedidos e agradecem tudo, entram no ônibus e vêm embora, mas muita gente vai para assistir à missa, então, isso também é importante, porque antes íamos lá rezávamos um terço e em seguida íamos embora, agora não, temos a missa com o padre Edisson.

 

Quem oferece os alimentos aos romeiros?

A comunidade é quem me ajuda. Saio pedindo pãozinho para todo mundo, então, uma padaria faz 100, outra mais 100 e assim vai. Esse ano deu 1450 lanches e o mais bonito de tudo isso é que tem uma turma de amigos, que moram no bairro Fábio Talarico, que reúne todos os familiares e vizinhos e passam a noite inteira preparando para no outro dia levarmos os lanches para as pessoas que estão chegando a pé, para que possam tomar um refrigerante e comer um lanche. Esse refrigerante também ganho da comunidade.

 

Quem mais te ajuda?

Para agradecer são muitas pessoas, mas existem os pioneiros que estão sempre comigo, como o Anderson de Souza; o Damascio; tem a Agritec; o Marco Pugliesi; o Sindicato Rural; a Prefeitura, que monta toda a estrutura para receber os romeiros e o ônibus; o Lourival, da madeireira Santa Izabel, que forneceu todas as tábuas para fazermos os bancos e armar a missa… Agora, assim, me fugiu da cabeça, mas são muitas. Faço um agradecimento a todas as pessoas que ajudaram, porque ganho um fardo de guaraná, 50 pães aqui, 100 pães ali, o outro me dá copinho, o outro me dá isso e o outro aquilo, então, tudo que ganho lá é de coração.

 

Tem planos para melhorias da capelinha?

Neste ano queremos fazer uma campanha para montarmos uma Torda (Tenda) maior para haver uma sombra maior aos romeiros, para descansarem e acompanharem a missa na sombra; e se chover também, a Torda vai proteger da chuva.

 

Há casos de muita fé, não é mesmo?

Em um domingo à tarde, presenciei uma família que tinha ido a pé e quando chegou lá na entrada, quando acabou a estrada para entrar na fazenda, a mulher foi de joelhos da entrada até a capelinha e o marido levando o nenenzinho nos braços com uma sonda. Fiquei olhando aquilo e meus olhos se encheram de água. A mãe foi de joelhos até na capela, no meio do mato. São 300 metros andando de joelho na terra. Nesse ano, ela voltou e fez novamente, porque recebeu a graça que solicitou naquele ano. Ela foi agradecer de joelhos novamente e a calça dela não rasgou. Conversei com ela e me disse que o menino dela tinha uma doença que não achava o que era, pediu a Deus para iluminar os médicos, para descobrirem qual era a doença da criança. E, alguns dias atrás, fizeram os exames e a criança estava lá saudável. Isso foi a fé que ela teve, esse foi um relato que presenciei, mas existem outras histórias, como a do Vinão Carreteiro: o menino dele nasceu, não chorava e o médico falou “O que podemos fazer pelo seu filho já fizemos, agora é apenas Deus para operar o milagre.” O médico saiu do quarto e ele ajoelhou no pé da cama e fez um pedido para o Pindoba para que o menino chorasse. Passaram três dias e o menino chorou e ele levou o menino de Guaíra até lá na capela nos braços, chegando lá, a família inteira orou um terço. Hoje é um grande homem.  Uma amiga minha também fez um pedido para passar no concurso da Polícia Federal, foi a pé para fazer o pedido, estudou muito, não ficou de braços cruzados, porque Deus intercede, mas temos que fazer nossa parte. E ela conseguiu passar e o dia que ela passou no concurso foi aprovada, foi na capela do Pindoba à tarde, fardada e deixou uma garrafa da PF.

 

Você ainda vai continuar?

Às vezes penso em parar e passar para outra pessoa, porque às vezes terá alguma ideia melhor do que a minha nas caminhadas e dará seguimento. Esse ano mesmo pensei em não mexer mais, mas quando, na madrugada, pego o meu carro e vejo aquele tanto de gente a pé indo para lá, tudo muda. Cheguei lá esse ano às seis da manhã e já estava cheio de pessoas que haviam saído às duas da manhã, daí comecei a entregar o lanche e o pessoal começou a agradecer. “Queimei minha língua” e ano que vem vou fazer de novo. Já são 18 anos que estou nessa lida aí.

 

Quanto tempo demorou para erguer a capela?

Fizemos a capela em um ano, lembro até hoje, assim que acabou a festa do peão de Guaíra, em junho, fui no jornal, conversei com o padre Edisson para fazermos uma campanha para construirmos uma capela, porque ela estava caindo. O padre Edisson me deu o alvará para fazermos a campanha. E, com a ajuda dele pedindo também, conseguimos fazer a capela em seis meses. Em junho fui na rádio fiz a campanha e dia 20 de janeiro inaugurou a capela, ela tem seis anos.

 

E assim…

Mas ninguém deu nada pra mim, mas sim porque tem fé no Pindoba, porque podia ser outra pessoa e a capela ia sair, pois temos uma turminha que está junto até hoje, um respeita o outro. Quando fomos fazer a campanha pedi, quem pagava era o Valtinho irmão do Dom Vilson, ele era o tesoureiro da turma, então de pagar e receber era com ele. Nessa construção da capela tenho que agradecer muito também ao Carlão da Mina Mercantil, porque ele fez uma campanha com os agricultores que nos ajudou acabar de construir. Tem também o agricultor, o sobrenome é Ortigoso, pois quando fui pedir ajuda para ele e me disse: “Quando o dinheiro acabar você me procura.”

 

Quem é dono das terras?

É a dona Cida; é um amor de pessoa. Antes de conhece-la, certa vez, junto comigo foi o Hermes, motorista da câmara, fomos a pé e resolvemos ir atalhando. Quando chegamos estava dona Cida e a filha dela lavando lá, mas o Hermes a conhecia por causa do esposo dela, até então nem sabia que era ela a dona, daí ele me disse “essa é a dona da fazenda.” Cumprimentei ela – até então não tinha a romaria – e ela perguntou se íamos sempre ali. Disse que sim, pois sou devoto ao Pindoba, ela nem falou que era a dona, o Hermes que falou. Era uma capelinha pequenininha. Depois falamos “vamos organizar uma romaria, temos uma turma de amigos”. Começamos o primeiro ano com 16 pessoas e se tornou o que é hoje. Bom, convidei ela para vir, mas não deu certo de vir um ano e no outro. Só que no terceiro ano saiu até na EPTV de Ribeirão, daí no quarto ano ela veio, apareceu, ficou ali na surdina, depois falei “dona Cida, o ano que vem vai ter uma missa e gostaria que a senhora viesse”… Tanto que no início era “Caminhada à capela do Pindoba” e depois que passou a se chamar Romaria. Então, a convidei e ela veio, me perguntou no que precisava ajudar e respondi “Nada, já ganhei tudo, quero a presença da senhora aqui”. Assim, ela começou a acreditar na gente.

 

Onde o Pindoba foi enterrado?

Ele foi enterrado na beira do mato. Vou te contar uma história – isso é verídico: havia um homem que morava na vila.  Bom, esse homem tinha um caminhão e chegava nas fazendas e ia pegando as coisas: porco e muitas coisas, ultimamente ele estava andando com uma serradeira, então, caía uma árvore na roça, ele ia lá e serrava e colocava no caminhão e vendia essas lenhas. Um dia, caiu uma árvore lá na capela do Pindoba e ele foi lá; estacionou o caminhão, não pediu para ninguém não, nem para o dono da fazenda e nem para o Pindoba. Simplesmente estacionou o caminhão, arrastou a árvore e quando foi coloca-la em cima do caminhão, ela caiu em cima dele e ele morreu esmagado. Isso foi ano passado. Chegaram lá estava morto, com a árvore em cima dele. Acredito que se ele tivesse pedido licença, ao menos para o dono da fazenda e falasse “olha caiu uma árvore na fazenda, pode ir lá buscar?”… No ano passado também, tinha uma turminha de amigos (porque as pessoas vão lá e deixam um litro de pinga, às vezes é um trabalho espiritual, o Pindoba não pede para levar pinga, é água ou comida), a pessoa falou assim: “Uai o Pindoba não bebe mesmo, vou levar essa pinga”. E levou embora, foi para a beira do rio e bebeu, morreu afogado.  Os amigos contaram que ele bebeu uma golada e depois morreu afogado. Tudo no ano passado. Acontece isso aí, então falo: “as pessoas têm fé, tem que ter respeito”.

 

Agradecimentos?

Gostaria de agradecer à dona Maria Aparecida Marcusse, proprietária da terra. Deixa te contar:  aonde fica a capela é dela, já o local que ele foi enterrado é de outro dono, a estrada passa no meio. A fazenda mudou o nome, porque antes não se chamava fazenda Pindoba e ela mudou.



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