Perdas bilionárias na pecuária ampliam espaço para bioinsumos no manejo animal, mas avanço do segmento depende de regulação

Cidade
Guaíra, 4 de novembro de 2026 - 06h42

Com resistência a químicos e pressão por soluções sustentáveis, tecnologias biológicas ganham espaço; ANPII Bio, que representa a indústria de bioinsumos, amplia sua atuação na pecuária e defende regulamentação que garanta inovação, segurança jurídica e competitividade

Tecnologias biológicas ganham espaço na pecuária, mas segmento depende da regulamentação 

Curitiba (PR), outubro de 2026 — A pecuária brasileira perde, anualmente, cerca de US$ 3,2 bilhões em decorrência de desafios sanitários associados ao carrapato bovino, principal ectoparasito dos rebanhos nacionais. Com o avanço da resistência aos carrapaticidas, somado aos desafios relacionados ao uso de antiparasitários químicos sintéticos e à crescente demanda do mercado consumidor pela redução do uso de produtos químicos na produção de alimentos, o setor busca novas alternativas de controle que sejam eficazes e sustentáveis.

“Esse avanço da resistência tem reforçado a necessidade de novas tecnologias de controle, capazes de contribuir para o aumento da produtividade e do bem-estar animal, ao mesmo tempo em que reduzem a dependência de insumos químicos. Nesse cenário, é fundamental criar condições para que soluções alinhadas ao conceito de Saúde Única, que considera a relação entre a saúde animal, humana e ambiental, cheguem ao mercado e contribuam para um manejo mais seguro e sustentável”, afirma Caio Monteiro, pesquisador na área de Parasitologia da Universidade Federal de Goiás (UFG).

No entanto, apesar do avanço tecnológico e do potencial de aplicação, o segmento ainda não conta com uma regulamentação específica para o registro de produtos com bioinsumos destinados ao controle de parasitas na pecuária, o que dificulta a regularização dessas tecnologias e o acesso do produtor rural a essas soluções. Nesse contexto, a consolidação do mercado depende de um texto final para a regulamentação da Lei dos Bioinsumos (Lei nº 15.070/2024) que contemple as particularidades desses produtos e garantam segurança jurídica, estímulo à inovação e competitividade. Atualmente, a regulamentação da lei segue em discussão a partir da minuta de decreto encaminhada por meio do Ofício nº 440/2025/DSV/SDA/MAPA, de dezembro de 2025, incluindo a construção de normas específicas para o registro desses produtos.

“O Brasil reúne escala produtiva, capacidade científica e um dos maiores mercados pecuários do mundo, mas transformar esse potencial em avanço concreto depende de um ambiente regulatório claro, que traga previsibilidade e destrave a inovação. Sem isso, o investimento desacelera e o país pode perder competitividade em uma frente estratégica para a produção animal”, explica Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio (Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos).

Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio 

Nesse sentido, a entidade, primeira a representar as indústrias de insumos biológicos no Brasil, ampliou sua atuação no último ano para incluir, entre as associadas, empresas do segmento de biológicos para a pecuária, com foco em soluções voltadas ao controle de parasitas externos nos rebanhos. A iniciativa também amplia as possibilidades de parcerias e interlocução com pesquisadores e instituições acadêmicas ligadas ao desenvolvimento dessas tecnologias. O movimento reforça o protagonismo técnico já exercido pela associação no Grupo de Trabalho (GT) instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) para a construção do marco regulatório da Lei de Bioinsumos, no qual participou como única representante exclusiva da indústria, com expertise específica em soluções de controle na pecuária, diferencial que segue relevante à medida que as discussões avançam para a consolidação do decreto.

O segmento e suas particularidades — Bioinsumos para uso animal abrangem produtos e processos de origem biológica, principalmente à base de microrganismos e seus metabólitos, aplicados na produção pecuária e aquícola para melhorar desempenho, saúde, bem-estar e eficiência produtiva, com foco em segurança, eficácia e qualidade industrial. Do ponto de vista tecnológico, a base é essencialmente a mesma dos bioinsumos agrícolas, com o uso de microrganismos benéficos, como, por exemplo, fungos e bactérias.

As diferenças mais relevantes estão no contexto de uso e nas exigências regulatórias: enquanto os biológicos agrícolas atuam sobre plantas, solo e organismos fitopatogênicos, os de uso animal interagem diretamente com o organismo animal ou com seu habitat, como é o caso do controle de carrapatos, moscas e outros parasitas, exigindo adaptações nos protocolos de uso, no manejo e nas condições práticas de aplicação.

Entre as alternativas em desenvolvimento estão fungos entomopatogênicos capazes de infectar carrapatos em diferentes fases de desenvolvimento, com aplicação direta no animal e na pastagem. Vírus que infectam bactérias, conhecidos como bacteriófagos, também vêm sendo pesquisados como aditivos zootécnicos para a prevenção de infecções do trato gastrointestinal em aves, suínos e bovinos, com potencial para substituir ou reduzir o uso de antibióticos nesses casos.

Além de reduzir a dependência de insumos químicos, os biológicos apresentam potencial para diminuir impactos sobre organismos não-alvo e o risco de resíduos químicos em produtos de origem animal. “O uso de biológicos na produção animal possui enorme potencial, principalmente onde os problemas não têm solução eficiente disponível. A aplicação dessas tecnologias poderá reduzir o uso de produtos químicos e diminuir o risco de que organismos resistentes, como bactérias multirresistentes, sejam transmitidos para humanos via alimentação ou manejo”, ressalta Luciano Lopes Queiroz, CEO da Karaja Biosciences.

O potencial dessas tecnologias também está relacionado aos desafios crescentes do manejo sanitário. Os antiparasitários químicos utilizados no controle de carrapatos vêm perdendo eficácia progressivamente devido à seleção de populações resistentes. Além disso, o uso inadequado desses produtos pode aumentar o risco de resíduos nos alimentos e trazer impactos para a comercialização.

Em paralelo, as exigências relacionadas ao controle e rastreabilidade do uso de antimicrobianos também têm repercussões no comércio internacional. No início de setembro, a União Europeia suspendeu temporariamente a entrada de produtos brasileiros de proteína animal no bloco, com base nas regras europeias para o uso dessas substâncias.

“Esse cenário, além de evidenciar a importância do controle sanitário diante do comércio internacional, também reforça a necessidade de alternativas eficazes, seguras e sustentáveis para o manejo sanitário da pecuária nacional”, ressalta a diretora de operações da ANPII Bio.

Regulamentação, inovação e próximos passos — No âmbito da Lei de Bioinsumos, a ANPII Bio estruturou, dentro do GT do MAPA, uma frente técnica e outra institucional para garantir uma legislação baseada em critérios técnicos, proporcionalidade ao risco e estímulo à inovação, incluindo o segmento de bioinsumos destinados ao controle de parasitas externos na pecuária, que envolvem particularidades próprias de produção, formulação, comercialização, aplicação e avaliação de segurança, demandando que suas especificidades sejam contempladas com rigor no texto final do decreto. Dessa forma, o segmento pode se desenvolver com segurança e competitividade, consolidando o Brasil como referência global também nessa frente.

Para Lucas von Zuben, CEO da Decoy, empresa associada à ANPII Bio, o cenário regulatório deste setor é complexo, já que as exigências incluem não apenas os ensaios normalmente requeridos para produtos agrícolas (eficácia, toxicologia e ecotoxicologia), mas também ensaios de segurança clínica nos animais-alvo. “Do ponto de vista da base tecnológica, há pouca ou nenhuma diferença entre os biológicos de uso animal e os de uso agrícola. As diferenças mais relevantes estão relacionadas ao contexto de uso e às exigências regulatórias. É exatamente nesse contexto que a ausência de um marco normativo específico para uso animal impõe os maiores obstáculos ao setor”, aponta.

Dessa forma, a ANPII Bio estruturou, entre suas contribuições, uma série de propostas diretamente relacionadas às particularidades do segmento que devem ser consideradas no texto final da regulamentação. Entre elas estão a definição de critérios para a validação de metodologias analíticas; a adequação dos requisitos para registro de estabelecimentos; o reconhecimento do efeito direto desses produtos sobre seus alvos; a definição de uma lista positiva de ativos biológicos autorizados para uso na pecuária, identificados em nível de cepa; a harmonização de terminologias entre as áreas agrícola e animal, garantindo coerência técnica e evitando sobreposições conceituais; e a garantia de que bioinsumos de uso pecuário com efeito direto comprovado sobre parasitas e invertebrados possam informar esses efeitos em rótulo e bula, com clareza e responsabilidade técnica, restringindo a vedação a alegações de natureza terapêutica ou curativa, privativas de medicamentos veterinários.

Além da agenda regulatória, a entidade atua como ponte entre instituições de pesquisa, universidades, startups e deeptechs, conectando esse ecossistema às indústrias e investidores para viabilizar o escalonamento industrial, a validação tecnológica e a inserção segura das inovações no mercado. “Essas contribuições não são demandas isoladas, mas parte de uma visão integrada de como o Brasil pode liderar também nesse segmento, com a mesma seriedade técnica e capacidade industrial que já demonstrou nos bioinsumos para uso agrícola” finaliza Larissa Bonotto, diretora de operações da ANPII Bio.

Sobre a ANPII Bio:

Fundada em 1990, a ANPII Bio, primeira associação representativa de insumos biológicos no Brasil, vem desempenhando um papel crucial na construção de uma legislação moderna e segura junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e outros órgãos reguladores. Isso permite que o setor produtivo ofereça produtos eficientes e inovadores, com biotecnologia de ponta aplicada à agricultura sustentável.

Em parceria com a Embrapa e outras instituições de pesquisa, a entidade viabilizou estudos que diversificaram e expandiram o setor, com mais de 200 empresas desenvolvendo e comercializando bioinsumos que beneficiam agricultores, o meio ambiente e a sociedade. Além disso, sua participação em eventos científicos, feiras agrícolas, espaços de discussão e diversos fóruns relevantes, assim como seu programa gratuito de EAD, tem promovido maior entendimento sobre a tecnologia dos biológicos e contribuído para o desenvolvimento sustentável da agronomia, da agricultura e da economia do Brasil.

Atualmente, conta com 34 associadas efetivas, incluindo indústrias produtoras e comercializadoras de bioinsumos (Agrivalle, Agripon, Agroceres Binova, Agrocete, Alltech, Alterra, Apoena Agro, Bioagro, Biocaz, Bio Controle, Bionat, Biosphera, Biota, BRQ, BSS, Cema, Elemental Enzymes, Forbio, Gaia, Geoclean, ICL, Indigo, Korin, Lallemand, Lynx Biological, Mosaic, Novonesis, Rizobacter, Rovensa Next, Sound, Spraytec, Stoller, Syngenta e Valeouro), além de 27 associadas colaboradoras.

Para mais informações, acesse: http://www.anpiibio.org.br


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