A política tem uma curiosidade que deveria despertar mais atenção do eleitor. Antes mesmo de conquistar o poder, algumas pessoas já começam a se comportar como se ele lhes pertencesse. Não receberam um único voto, não ocuparam a cadeira, não carregam ainda nenhuma responsabilidade pública. Mesmo assim, falam como indispensáveis, apresentam-se como solução e parecem mais preocupadas em serem vistas do que em compreender aquilo que pretendem governar.
É nesse momento que o espelho aparece. O aspirante ao poder começa a medir sua importância pelo número de pessoas que o cercam, pelas fotografias em que aparece, pelos elogios que recebe e pela quantidade de vezes que seu nome é mencionado. A política, que deveria começar pela capacidade de ouvir, passa a ser construída sobre uma necessidade quase permanente de exposição.
Há uma diferença enorme entre querer servir e querer ser reconhecido como aquele que serve. O primeiro procura problemas para resolver. O segundo procura câmeras para registrar que esteve perto deles. Um pergunta o que precisa ser feito. O outro parece perguntar, ainda que silenciosamente, se perceberam que ele estava ali.
Isso não significa que todo candidato comunicativo, ambicioso ou presente seja narcisista. A política exige exposição, liderança e até uma dose saudável de confiança. O problema começa quando a imagem deixa de ser instrumento e passa a ser finalidade. Quando o projeto existe para sustentar uma candidatura, em vez de a candidatura existir para sustentar um projeto.
Talvez por isso o período anterior ao poder revele tanto. É relativamente fácil prometer humildade quando ainda se precisa do voto. Mais difícil é demonstrá-la justamente nessa caminhada. Quem não consegue dividir protagonismo antes de chegar dificilmente aprenderá depois. Quem considera toda crítica uma agressão durante a campanha provavelmente não descobrirá, magicamente, o valor da discordância quando estiver sentado na cadeira.
O eleitor costuma perguntar o que um candidato fará se vencer. Talvez devesse observar também como ele se comporta enquanto ainda precisa convencer. Como trata quem não pode lhe oferecer votos. Como reage quando outro recebe o crédito. Como lida com um “não”. Se consegue ouvir sem preparar imediatamente a própria resposta. Pequenos gestos dizem muito sobre a relação que alguém pretende estabelecer com o poder.
Porque a cadeira pública não deveria ser prêmio para quem mais deseja ocupá-la. Ela é uma responsabilidade temporária entregue por milhares de pessoas a alguém que precisa compreender uma coisa fundamental: aquele lugar nunca será seu.
Talvez seja por isso que, antes de entregar poder a alguém, devêssemos observar para onde essa pessoa está olhando.
Se para a sociedade.
Ou para o próprio espelho.

