São 23 horas. Para quem está fazendo a festa, a noite pode estar apenas começando. Para quem precisa acordar cedo para trabalhar, estudar ou simplesmente descansar, o dia já deveria ter terminado. A mesma música que embala uma casa pode transformar a noite da casa ao lado em uma longa espera pelo silêncio.
É aí que uma regra simples de convivência costuma ser esquecida: o direito de cada um termina onde começa o direito do outro. E isso inclui o direito ao sossego.
Ninguém está dizendo que as pessoas não podem comemorar, receber amigos, ouvir música ou aproveitar a noite. A cidade não pode ser um lugar onde toda manifestação de alegria seja vista como problema. Mas também não pode ser um lugar onde a diversão de alguns obrigue outros a perder o sono dentro da própria casa.
O problema não é a música. É o limite.
Quando o prazer de um depende do incômodo do outro, alguma coisa saiu do lugar. E não se trata apenas de decibéis. Trata-se da dificuldade de reconhecer que, depois da nossa porta, existe alguém que também tem direitos, compromissos e necessidades.
Quem precisa descansar não deveria ter de explicar por que precisa de silêncio.
Todos sabemos defender os nossos direitos. O difícil parece ser lembrar que o outro também tem direitos.
Viver em sociedade não significa abrir mão da liberdade. Significa compreender que liberdade sem limite pode se transformar em invasão. O bom senso deveria chegar antes da reclamação, da fiscalização e da intervenção de qualquer autoridade.
Porque existem situações em que nenhuma regra substitui aquilo que deveria ser mais simples: perceber que estamos incomodando alguém e diminuir o volume.
Talvez essa seja uma das medidas mais elementares da convivência. Não perguntar apenas “eu posso?”, mas também “até onde o que eu faço interfere na vida do outro?”
Diversão é direito. Liberdade também. Mas o outro também existe.
O direito de cada um termina onde começa o direito do outro.

