Você já deve ter trombado com alguém que fala com tanta certeza que parece saber de tudo, principalmente quando está apontando o erro dos outros. É aquele sujeito que tem explicação para tudo, um culpado para cada problema e uma resposta pronta antes mesmo de conhecer os fatos. Se você pensou em alguém, não precisa dizer quem. Talvez seja melhor assim.
Esse sujeito tem nome: sofista. Numa tradução simples para os nossos dias, é quem usa as palavras para convencer, mesmo quando não consegue demonstrar aquilo que afirma. O sofista moderno não precisa fazer discurso em praça pública. Pode estar numa conversa, numa rede social, num grupo de mensagens ou até ocupar uma posição de respeito. Seu talento não está necessariamente em saber mais. Está em parecer saber.
Imagine uma situação bastante comum. Alguém faz uma acusação. Você pergunta: “Mas qual é a prova?”. Em vez de responder, vem outra acusação. Você insiste. Surge um “todo mundo sabe”. Você pede a fonte. Aparece uma história antiga, um caso parecido ou, quem sabe, a pergunta que pretende encerrar a conversa: “Então você está defendendo quem?”
Pare um instante e perceba o que aconteceu.
A conversa começou com uma acusação e, sem que você percebesse, terminou com você tendo de se explicar.
Essa é a teia.
O sofista moderno não precisa obrigá-lo a acreditar nele. Basta conduzir a conversa até o ponto em que questioná-lo pareça mais estranho do que concordar. Quando isso acontece, a prova deixa de ser o centro da conversa. A narrativa ocupa o seu lugar.
E não pense que ele precisa inventar tudo. Às vezes, parte de um fato verdadeiro, acrescenta uma interpretação conveniente, escolhe o que mostrar e deixa de fora aquilo que poderia comprometer sua conclusão. O resultado pode parecer perfeitamente lógico.
Mas existe uma diferença fundamental entre uma história convincente e uma história comprovada.
Uma coisa é contar bem. Outra é demonstrar.
É aqui que nós, leitores, precisamos ter cuidado. É fácil reconhecer o sofista nos outros. Mais difícil é admitir que também podemos cair numa boa narrativa. Todos temos pressa, preferências, simpatias e antipatias. Podemos acreditar primeiro e conferir depois.
É exatamente nisso que ele aposta.
Ele quer nossa reação antes da reflexão, nosso compartilhamento antes da conferência, nossa indignação antes da apuração. Sabe que uma acusação circula mais rápido do que uma correção e que uma suspeita, depois de espalhada, dificilmente volta ao ponto de partida.
O encanto está justamente aí.
Não precisamos ser obrigados a acreditar. Basta sermos conduzidos até o ponto em que a história parece tão convincente que deixamos de perguntar se ela é verdadeira.
Por isso, quando alguém lhe entregar uma certeza pronta, diminua o passo.
Pergunte de onde veio. Procure a fonte. Veja o que ficou de fora. Considere outra explicação. E, principalmente, não aceite que uma suspeita seja transformada em fato apenas porque foi apresentada com convicção.
Desconfie de quem sempre traz o culpado, mas nunca traz a prova.
Não é preciso ser especialista para escapar de uma teia dessas. Também não é preciso vencer uma discussão. Basta preservar algo que nenhum discurso deveria conseguir tirar de você: o direito de perguntar.
Porque o sofista moderno não precisa provar que está certo. Precisa apenas convencer você de que não vale a pena perguntar se ele está.
Da próxima vez que alguém lhe entregar uma história pronta, não tenha pressa de acreditar, nem de rejeitar.
Pare.
Respire.
E faça a pergunta mais simples, e talvez mais incômoda, de todas:
“Tudo bem. Agora me mostre a prova.”

