Era 1984.
Chico Anysio colocou diante das câmeras um jovem universitário chamado Washington. Militante, comunista, cheio de certezas e sempre preparado para transformar qualquer conversa em discussão política.
George Orwell, curiosamente, já havia escolhido aquele mesmo ano para ambientar uma história sobre controle do pensamento.
Mas calma.
Estamos falando apenas de 1984.
Washington era uma caricatura. Exagerado, naturalmente. Afinal, esse era o trabalho de Chico: aumentar certos traços até que o público pudesse enxergá-los melhor.
Naquele tempo, havia jovens convencidos de que determinadas ideias eram tão corretas que ouvir o contrário parecia quase uma provocação. O debate, quando existia, nem sempre era exatamente uma troca. Às vezes parecia mais uma tentativa de descobrir quanto tempo o outro levaria para perceber que estava errado.
Coisas daquela época.
Alguns desses jovens frequentavam universidades. Muitos discutiam política nos corredores, nas salas, nos centros acadêmicos. Defendiam suas convicções com entusiasmo e, vez ou outra, com aquela generosidade típica de quem aceita todas as opiniões, desde que sejam as mesmas.
Chico percebeu isso e criou Washington.
O personagem era engraçado porque sua ideologia ocupava tanto espaço que quase não sobrava lugar para o outro. Qualquer assunto podia terminar em política. Qualquer divergência parecia suspeita. Qualquer discordância precisava de correção.
Mas estamos falando dos anos 1980.
Naquela época, alguns pais também se preocupavam com o ambiente em que seus filhos estudariam. Queriam boa formação profissional, professores competentes e, quem sabe, um lugar onde diferentes ideias pudessem dividir a mesma sala sem que uma delas precisasse pedir licença para existir.
Uma preocupação bastante antiquada.
A universidade, afinal, sempre teve uma tarefa difícil: ensinar pessoas a pensar, não simplesmente a concordar. Colocar certezas diante de outras certezas e descobrir quais delas sobrevivem ao argumento.
Era assim que deveria funcionar.
E talvez esteja justamente aí a genialidade de Chico Anysio. Ele percebeu que o problema de Washington nunca foi apenas ser de esquerda. Era acreditar tanto em suas próprias certezas que o pensamento diferente começava a parecer uma espécie de contaminação.
Curioso.
Porque quando um ambiente se acostuma demais a ouvir a própria voz, chega um momento em que qualquer voz diferente parece ruído.
Mas tudo isso aconteceu há mais de quarenta anos.
Washington pertence a 1984.
Qualquer semelhança com a realidade, naturalmente, é mera coincidência.
Ainda assim, fica uma curiosidade: por onde andarão os Washingtons daquela época? Que profissões escolheram? Que lugares passaram a ocupar?

