Momentos de tensão e decisão

Opinião
Guaíra, 1 de abril de 2016 - 09h06

O país está nervoso. A maioria do povo brasileiro quer a saída da presidente Dilma. É o que mostram as pesquisas. O processo de impeachment da mandatária-mor foi instalado. E a polêmica se estabelece. “Não vai haver golpe”, bradam milícias do PT, sob a orientação do maestro Luiz Inácio e da pupila presidente. Dois ministros do Supremo Tribunal, Carmen Lúcia e Dias Toffoli, e um ex-ministro que dirigiu a Corte, Carlos Ayres Britto, proclamam no mesmo dia: o impeachment é legal, se obedecido o rito determinado pela Justiça. As redes sociais se enchem de manifestações a favor e contra o impeachment. Qual será o desfecho da acirrada disputa? Partamos da hipótese de que o exército governista consiga vencer a luta. Significa: preservar o mandato da presidente, consolidar a figura do ex-presidente Luiz Inácio como ministro-chefe da Casa Civil e distribuidor das cartas do jogo administrativo. Segura no governo o PMDB e outros partidos governistas. Dentro de seis meses, Lula fará uma guinada na economia, pela qual o povo voltaria a ter dinheiro no bolso. Meio ano seria suficiente, como prometeu em discurso, para fazer voltar a alegria ao país. Deixemos de lado a análise de como realizaria o milagre. Admitamos apenas que Deus é brasileiro e, petista de carteirinha, faria jorrar dos céus o maná para apaziguar nossas desesperanças. Sob um manto vermelho, ajudaria Dilma, Lula, o PT, a CUT e o MST a recuperarem prestígio e força. Tentemos, agora, encaixar no entorno dos Palácios do Planalto e da Alvorada outras hipóteses. A sobrevivência da presidente e do ex, sob o prisma da preservação de forças, depende fundamentalmente do Poder Judiciário. Que não poderá enterrar as bombas tiradas do arsenal do senador Delcídio Amaral, das delações de executivos da Odebrecht e de outros artefatos em preparação, como a aguardada carga de informações do ex-presidente do PP, deputado Pedro Correa. Ele garante que Lula foi o inspirador do mensalão e do petrolão. Desse modo, a Operação Lava Jato puxará Dilma e Lula para o meio do furacão. Imaginar que estariam livres da Operação comandada pela “República de Curitiba”, como Lula se refere ao juiz Sérgio Moro, é apostar alto na tese de que Deus é um fanático petista. Pois bem, ambos serão investigados, a presidente permanecendo na alçada do STF e Luiz Inácio descendo para o foro da 1ª. instância. O pedido de impeachment, mesmo sob o argumento da irresponsabilidade cometida com o uso de pedaladas fiscais, ganha impulso na onda da contrariedade social, alavancada pelo desemprego, alta inflação, maracutaias descobertas e políticos recebendo recursos de empresas. Soma-se a esse acervo negativo mais um pedido de impeachment, desta vez feito pela Ordem dos Advogados do Brasil, que junta outras situações. A fogueira do impedimento não se apagará. Mas há um prazo fatal para queimar as últimas estacas: junho. Se Dilma conseguir entrar como presidente no mês de agosto, será salva. Julho é mês de férias e agosto abrirá as campanhas municipais. Brasília será um deserto. Os congressistas estarão fazendo campanhas nas bases de seus candidatos a prefeito. Ainda na esteira da reflexão lateral, pensemos no papel de Lula. Se conseguir ser ministro, posição que vai depender do julgamento do STF sobre suspeita que recai sobre ele e a presidente de tentarem obstruir a Justiça, perde a condição de palanqueiro e assume a vanguarda do governo Dilma. Realizará o milagre da multiplicação de pães e peixes? A propósito, esse milagre ocorreria em anos de vacas magras, padarias sem massa de trigo e mar sem piaba. Deixemos, porém, que ele e Nelson Barbosa arrumem a grana para abrir o crédito, enfiar dinheiro no bolso dos pobres e massificar o consumo. Mesma receita de 2008? Pois é, Luiz Inácio não se deu conta que o mundo mudou. Se Dilma for mantida, Lula não for condenado, enfim, se nada acontecer com eles no desfecho da Lava Jato, a economia sairá da recessão? Hum, possibilidade zero. Emerge a hipótese: a instauração de um novo governo. Que se dará pela via do impeachment. O processo, como já se disse, será rápido, ao contrário da análise e julgamento das contas de campanha pelo Tribunal Superior Eleitoral. Nessa via, os corredores são longos, com oitivas, provas e contraprovas, embargos e recursos, fazendo com que o processo suba ao Supremo. Se houver impeachment, aliás, a tendência será a de arrefecimento dos recursos que correm no TSE. A temperatura social seria mais amena ante a perspectiva de um novo rumo para o país. Os setores produtivos querem resgatar a confiança perdida. Crer no país- essa é a chave que poderá reabrir as portas dos investimentos e dos negócios. A militância lulopetista ameaça incendiar o país, caso a presidente Dilma seja afastada. É previsível o acirramento de tensões, que poderá gerar incidentes em alguns espaços, principalmente na arena de guerra paulistana, a Avenida Paulista, onde as alas contrárias e a favor do governo costumam se enfrentar. A tensão social deverá se expandir em função dos bolsos esvaziados das classes sociais. O conflito social no Brasil tende a se agravar. Diante desse cenário, não se descarta a possibilidade de intervenção de forças do Exército nas ruas para evitar catástrofes. As próximas semanas serão decisivas para desanuviar os horizontes. Se o impeachment passar pela Câmara, será difícil que o Senado deixe de acolhê-lo. Afinal, quem fala pelo povo é o deputado. O Senado tende a aceitar eventual decisão a ser tomada por 342 votos. Na frente da Justiça, a liturgia também é previsível. As investigações continuarão, propiciando mais condenações e delações. É o que a sociedade espera. Apesar da sensação de que o exercício de “passar o Brasil a limpo” não tem retorno, indagações surgem aqui e ali: quantos parlamentares serão condenados? Que medidas são necessárias para mudar efetivamente os rumos da política?  “Que o passado esteja diante de nós, vá lá… Mas o passado adiante de nós, sai pra lá.” A expressão artística é do poeta Carlos Ayres Britto, ex-presidente do STF.


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Gaudêncio Torquato

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

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