Quando o “NÃO” virou um problema?

Editorial
Guaíra, 21 de junho de 2026 - 09h22

Nunca foi tão difícil dizer “não” para uma criança. E talvez esse seja exatamente o problema.

Vivemos uma época em que quase tudo virou justificativa para evitar desconforto. Há sempre uma explicação psicológica, uma orientação especializada, um novo método, uma nova teoria. Mas, no meio de tanta informação, cresce uma geração cada vez menos preparada para lidar com a palavra mais simples da educação: não.

Em algum momento, o “não” deixou de ser limite e passou a ser interpretado como agressão. Como se frustrar uma criança fosse um erro moral dos pais, e não uma parte inevitável da formação humana. O resultado disso não é difícil de enxergar, apenas difícil de admitir.

A vida não foi feita para obedecer aos nossos desejos.

Ela não negocia, não suaviza e não se adapta às vontades de ninguém. Ela frustra, interrompe, cobra e, muitas vezes, decepciona. E continuará fazendo isso com ou sem a nossa autorização.

A pergunta, portanto, não é se os filhos vão enfrentar frustrações. Eles vão. A pergunta é se estarão preparados quando isso acontecer.

O problema é que estamos criando uma geração treinada para ser poupada de tudo aquilo que a vida não poupará.

Queremos jovens resilientes, mas evitamos o desconforto na infância. Queremos adultos responsáveis, mas retiramos as consequências. Queremos pessoas fortes, mas não suportamos vê-las frustradas por um minuto sequer.

A criança que nunca aprende a ouvir “não” não cresce protegida. Cresce despreparada.

Esse despreparo cobra um preço alto. Ele aparece na dificuldade de lidar com críticas, na intolerância à frustração e na incapacidade de aceitar limites simples da convivência social. Não é falta de inteligência. É falta de treino para a realidade.

Mas talvez o ponto mais desconfortável de todos seja este: isso não acontece por falta de amor. Acontece por excesso dele, ou melhor, por uma versão equivocada.

Confundimos amar com evitar sofrimento. Confundimos cuidar com impedir experiências. Confundimos educação com aprovação constante.

E, nesse engano, o “não” virou inimigo.

Só que limites não são crueldade. Crueldade é deixar alguém crescer acreditando que o mundo vai se dobrar aos seus desejos.

Porque não vai.

E quando a realidade chega — e ela sempre chega — nenhum discurso, teoria ou justificativa substitui o que não foi ensinado na infância.

Filhos não precisam de proteção contra a realidade. Precisam de preparo para enfrentá-la.

No fim, a vida não cobra o que os pais disseram. Cobra o que os filhos aprenderam.


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