O despertador toca antes do sol. É o cheiro de café passado às pressas, o corre-corre no ponto de ônibus, a arte diária de equilibrar o orçamento no fio da navalha. Durante anos, repetimos entre um suspiro e um riso amarelo: “O Brasil não é para amadores”. Gostamos dessa frase. Ela massageia nosso ego, fazendo-nos acreditar que somos uma sociedade de profissionais calejados, conscientes e prontos para qualquer tempestade.
Mas a nossa maior contradição talvez more justamente aí.
Somos, de fato, profissionais impecáveis do lado de dentro do crachá. Acordamos cedo, empreendemos no improviso, criamos soluções onde só havia nós e superamos dificuldades que fariam muitos países por aí pedirem arrego. Contudo, quando pisamos na calçada e vestimos o fato da cidadania, agimos como ingênuos amadores.
Trabalhamos duro para conquistar cada centímetro do que temos, mas aceitamos, com uma resignação quase poética, sustentar estruturas que nos entregam muito pouco em troca. Carregamos no lombo um peso que jamais deveria ser nosso, enquanto, no andar de cima, os velhos privilégios seguem blindados e intocados.
E o mais preocupante nem é a existência dessas distorções. O perigo real é o dia em que nos acostumamos com elas.
É quando a exceção vira regra no farol da esquina. Quando o absurdo vira rotina no café da tarde. Quando a indignação sagrada se dissolve na acomodação do “é assim mesmo”. Nenhum sistema de privilégios se mantém apenas pela força de quem manda no topo; ele precisa, obrigatoriamente, do silêncio, da tolerância e do cansaço de quem sustenta a base.
A política não nasce num planeta distante. Ela é um espelho implacável da própria rua. E espelhos não inventam rostos — apenas devolvem a imagem de quem se coloca diante deles. Passamos tempo demais xingando o vidro trincado pela imagem imperfeita que ele nos mostra.
O Brasil não precisa de novos salvadores da pátria caindo do céu. O que precisamos, com a urgência de quem vê o tempo passar, é de novos protagonistas. Nenhum país muda quando seu povo se limita a trabalhar apenas para não morrer de fome no fim do mês.
É hora de virar a chave. Chega de ser a plateia exausta que apenas carrega o piano ladeira acima, enquanto alguns poucos saboreiam a bela melodia degustando um bom vinho na varanda. O concerto também tem que ser nosso.

