A difícil arte de ser justo

Editorial
Guaíra, 5 de agosto de 2026 - 07h59

Administrar uma cidade talvez seja um dos maiores exercícios de equilíbrio que existe.

Todos têm demandas legítimas. O comerciante quer mais vagas de estacionamento. O morador quer mais tranquilidade. O empresário pede infraestrutura. O agricultor reivindica estradas. O jovem quer espaços de lazer. O idoso precisa de acessibilidade. Cada pedido faz sentido quando observado isoladamente.

O desafio começa quando esses interesses passam a disputar o mesmo espaço, o mesmo orçamento e as mesmas prioridades.

É nesse momento que governar deixa de ser o ato de agradar e passa a ser o exercício de decidir.

Nem toda decisão conseguirá beneficiar a maioria. Há situações em que uma obra atenderá um bairro específico, uma ação alcançará apenas um segmento da população ou um investimento resolverá um problema localizado. Isso não é injusto. Pelo contrário. Uma cidade também se constrói olhando para necessidades particulares.

O que não pode acontecer é que o interesse de poucos produza prejuízo para muitos.

Talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre governar e apenas administrar demandas.

A melhor maneira de agradar gregos e troianos talvez não seja tentar dizer “sim” para todos. Isso é impossível. A melhor maneira talvez seja ser justo.

Ser justo é reconhecer que toda escolha gera consequências. É compreender que recursos públicos são limitados e que cada decisão deve produzir o maior benefício possível para a coletividade, sem ignorar quem realmente precisa de atenção.

Planejar uma cidade é, acima de tudo, buscar esse equilíbrio. Nem sempre será uma equação perfeita. Haverá decisões impopulares, prioridades contestadas e interesses contrariados. Faz parte da vida em sociedade.

Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar toda decisão pública:

Esta mudança atende uma necessidade legítima sem impor um custo desproporcional ao restante da cidade?

Se a resposta for sim, ela merece ser considerada, ainda que beneficie um grupo menor.

Porque nem toda mudança precisa beneficiar a maioria para ser justa.

Mas nenhuma mudança é justa quando beneficia poucos às custas de muitos.


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