O avanço e o abismo

Opinião
Guaíra, 5 de julho de 2026 - 09h50

O progresso social de uma nação raramente se revela de forma evidente
no dia a dia; ele se deixa apreender no acúmulo silencioso das
transformações estruturais. Em maio de 2026, a divulgação do relatório
Radar IDHM pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (Pnud) ofereceu um desses momentos de síntese
histórica.
Ao registrar o índice de 0,805 em 2024, o Brasil cruzou pela primeira
vez o limiar que o posiciona no patamar de desenvolvimento humano
muito alto. Para um país que há três décadas se encontrava na faixa de
desenvolvimento baixo, com marcas inferiores a 0,555, o resultado
representa o amadurecimento de políticas de Estado –em escolas,
hospitais, programas sociais, valorização do salário mínimo, expansão
do acesso à renda– que resistiram a crises políticas e ao impacto severo
da pandemia de Covid-19.
Celebrar esse teto reluzente é um dever de justiça com a nossa própria
caminhada. No entanto, a solidez de um edifício não se mede pela
beleza de sua cobertura, mas pela resistência de suas fundações. E as
fundações do desenvolvimento brasileiro ainda expõem as fraturas de
um atraso secular, onde a desigualdade crônica e o abismo entre brancos
e negros insistem em desafiar o otimismo das médias.
Para situar esse avanço sem distorções, é preciso delimitar a fronteira
metodológica entre o IDHM e o IDH Global. São índices irmãos, mas
não gêmeos. Enquanto o IDH Global é um indicador de comparação
internacional entre Estados soberanos, estruturado a partir de bases de
dados mundiais, o IDHM é uma ferramenta de corte territorial, adaptada
para capturar as especificidades dos municípios e regiões
metropolitanas brasileiras. Alimentado pelo Censo Demográfico e pela
Pnad Contínua do IBGE, o índice ajusta as variáveis de fluxo escolar e

rendimento para refletir as vulnerabilidades internas do território. As
duas métricas são ferramentas distintas para perguntas distintas.
Dos três pilares que compõem o índice –educação, longevidade e
renda– o primeiro foi o motor do ciclo recente, subindo de 0,679 em
2012 para 0,798 em 2024. O relatório identifica com clareza o
mecanismo por trás desse salto: o Bolsa Família. Criado em 2003, o
programa começou a produzir seus efeitos mais visíveis nos índices de
escolaridade a partir de 2012, quando a primeira geração de
beneficiários completava o ciclo básico de estudos. Ao vincular o
benefício à frequência escolar, retirou crianças do trabalho infantil e as
manteve nas salas de aula. Os dados mostram que esse efeito foi
especialmente pronunciado entre famílias negras de baixa renda.
Já o pilar da longevidade, que mede a expectativa de vida ao nascer, é
o mais maduro. Em 2012, o subíndice já estava em 0,829, classificado
como “muito alto” –um resultado de décadas de consolidação do
Sistema Único de Saúde. Em 2024, chegou a 0,860. O avanço é
consistente, mas lento, porque o SUS tornou o Brasil longevo antes que
o país se tornasse rico e educado.
A renda, por sua vez, é o indicador mais frágil. Ele evoluiu de 0,732 em
2012 para 0,760 em 2024, o menor avanço entre os três eixos, e
permanece na faixa de “alto” –um degrau abaixo dos outros dois. Os
números brutos revelam a dimensão do problema: a renda domiciliar
per capita da população branca alcançou R$ 1.208,58 em 2024,
enquanto a da população negra ficou em R$ 673,65. Uma diferença de
79%. A renda é o número mais desigual do índice e o que mais pesa
quando o IDHM é ajustado pela realidade vivida por cada brasileiro.
É nesse ponto que o recorte racial se torna incontornável. O IDHM da
população branca chegou a 0,851 em 2024, na faixa “muito alto”. O da
população negra ficou em 0,774, na faixa “alto”. A diferença relativa
caiu de 14% para 9% entre 2012 e 2024, o que é progresso genuíno. Se
a direção é a certa, a velocidade ainda condena: uma geração inteira
separa os dois grupos. “Quem sustentará o Brasil do futuro é um jovem
negro, não é um jovem branco”, afirmou a economista Betina Barbosa,
coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud
Brasil. A frase não é retórica; é demográfica. Sem incluir a população

negra na equação central do desenvolvimento, o Brasil não se
viabilizará como projeto de país no século XXI.
O índice de 0,805 é, em última análise, o resultado empírico sobre o que
o Estado brasileiro é capaz de fazer. O SUS prolongou vidas. O Bolsa
Família encheu salas de aula. A valorização do salário mínimo colocou
renda nas mãos de quem menos tinha. O Nordeste oferece a prova mais
animadora desse ciclo: Alagoas, Piauí e Rio Grande do Norte lideraram
os avanços proporcionais no IDHM entre 2012 e 2024, e sete das nove
regiões metropolitanas nordestinas já ostentam índice “muito alto”.
Trata-se do efeito acumulado de políticas sustentadas no tempo,
aplicadas onde o ponto de partida era mais baixo e, portanto, onde cada
real bem gasto produz mais resultado.
Mas a pergunta sobre a qualidade desse gasto não some com a
comemoração. O Brasil aplica, em proporção do PIB, valores
comparáveis aos de países com resultados muito superiores nos
mesmos indicadores. O próximo ciclo exige respostas diferentes das
que funcionaram no anterior: não mais só ampliar o acesso, mas elevar
a qualidade; não mais só distribuir renda, mas criar as condições para
que ela seja gerada. Como o próprio Pnud registra, o Brasil modernizou
sua economia sem democratizar plenamente o acesso à riqueza. A base
institucional está bem erigida. O que se constrói sobre ela –e para
quem– é a questão que importa a partir de agora.

Dimas Ramalho é vice-presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo


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Dimas Ramalho

Dimas Ramalho é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, do qual também foi presidente em 2016. Foi deputado federal (PPS) e estadual (PMDB) e Procurador de Justiça do Ministério Público do Estado de São Paulo.

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