O direito de pensar diferente

Opinião
Guaíra, 11 de outubro de 2026 - 06h42

Há uma espécie de amigos e até parentes, que em época de eleição, parecem esquecer os laços de família e amizades e assumem  uma missão quase divina: salvar a humanidade pelo WhatsApp. Acorda distribuindo vídeos, passa o dia encaminhando discursos e termina a noite convencido de que, se você ainda não mudou de opinião, é porque não recebeu mensagens suficientes. Não importa se ninguém perguntou, se ninguém respondeu ou se o grupo foi criado apenas para compartilhar notícias relacionadas ao pessoal. O importante é evangelizar politicamente todos de preferência antes do café da manhã.

O problema não está em defender um candidato, um partido ou uma ideologia. Isso é legítimo e faz parte da democracia. O problema começa quando alguém confunde liberdade de expressão com autorização para importunar os outros. Há pessoas que parecem acreditar que possuir uma opinião política lhes concede o direito de ocupar o celular, a paciência e até a consciência alheia. E o mais curioso é que, quanto menos disposição demonstram para ouvir, maior parece ser sua necessidade de falar.

Mas a situação fica realmente desagradável quando essa militância atravessa a tela e invade as relações familiares. Pessoas que conhecemos há décadas, com quem dividimos mesas, histórias, alegrias e dificuldades, passam a nos olhar como adversários simplesmente porque pensamos diferente. De repente, o irmão vira ignorante, o primo se transforma em inimigo e aquele tio querido passa a ser tratado como alguém que precisa urgentemente ser reeducado. Tudo porque teve a ousadia de exercer o próprio direito de escolha.

E aqui aparece uma das maiores ironias dos nossos tempos. Alguns dos mais barulhentos defensores da democracia são justamente aqueles que menos suportam uma opinião contrária. Falam em liberdade, desde que seja a liberdade de concordar com eles. Pregam tolerância, mas distribuem desprezo. Exigem respeito às próprias convicções, enquanto tratam as dos outros como deficiência intelectual. São democratas tão especiais que, se pudessem, proibiriam democraticamente qualquer discordância.

Nas redes sociais, o espetáculo ganha proporções ainda mais curiosas. Há quem compartilhe mensagens sobre amor, união, família e respeito pela manhã e, minutos depois, esteja distribuindo insultos contra quem pensa diferente. São verdadeiros especialistas em fraternidade seletiva. Amam a humanidade, desde que ela vote corretamente. E, quando alguém resolve não participar dessa guerra particular, interpretam o silêncio como ignorância, covardia ou falta de consciência política. Nunca lhes ocorre que a outra pessoa simplesmente tenha coisas mais interessantes para fazer.

O que muitos parecem esquecer é que nenhuma eleição deveria ter o poder de apagar uma vida inteira de convivência. Governos passam, presidentes mudam, partidos se reorganizam e antigos adversários acabam, não raramente, sentados à mesma mesa negociando alianças. Enquanto isso, há famílias que deixam de se falar, amizades que se desfazem e pessoas que carregam ressentimentos durante anos. A ironia é cruel: os políticos fazem as pazes quando lhes convém, mas os parentes continuam brigados por eles.

Respeitar alguém não significa concordar com suas ideias, muito menos renunciar às próprias convicções. Significa apenas reconhecer que ninguém é obrigado a pensar pela nossa cabeça. A verdadeira inteligência não está em conseguir repetir todos os argumentos favoráveis a um candidato, mas em compreender que uma pessoa pode discordar de nós sem ser desonesta, incapaz ou moralmente inferior.

Talvez a maior demonstração de maturidade política seja aprender a conviver com quem pensa diferente sem transformar cada encontro em uma disputa e cada conversa em um tribunal. Afinal, ninguém precisa pedir licença para ter opinião própria, muito menos apresentar justificativas ao fiscal eleitoral da família.

A democracia não começa no discurso inflamado, na bandeira levantada ou na quantidade de mensagens encaminhadas. Ela começa no respeito ao direito do outro de fazer suas escolhas, inclusive aquelas das quais discordamos profundamente.

Porque, se para defender um político você precisa humilhar um irmão, desprezar um amigo ou desrespeitar seus próprios familiares, convém rever suas prioridades. Você pode até conhecer muito sobre o seu candidato, mas ainda tem bastante a aprender sobre democracia.

E fica uma última provocação: será que vale a pena perder o respeito de quem conhece você a vida inteira para defender alguém que provavelmente nem sabe que você existe?


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Izildinha Lacativa

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