Remédios falsos contra o câncer chegaram a hospitais e foram aplicados em paciente; operação prende três suspeitos em São Paulo

Cidade
Guaíra, 6 de novembro de 2026 - 06h36

Operação Laziosi investiga rede de comercialização de medicamentos oncológicos adulterados, suspeitas de lavagem de dinheiro e movimentações milionárias. Justiça determina bloqueio de até R$ 15 milhões e suspende atividades de sete empresas

Imagine enfrentar um diagnóstico de câncer, iniciar um tratamento que representa uma esperança de vida e descobrir que o medicamento recebido pode não conter a substância necessária para combater a doença.

É justamente essa a gravidade de uma investigação que ganhou novos desdobramentos nesta quinta-feira, 5 de novembro, quando a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo deflagraram a segunda fase da Operação Laziosi, destinada a desarticular um esquema suspeito de comercializar medicamentos oncológicos falsificados.

Três pessoas foram presas preventivamente. As equipes cumpriram 18 mandados de busca e apreensão em Araraquara, Matão, Marília, Agudos, Mirassol e na capital paulista. A Justiça também determinou o bloqueio de até R$ 15 milhões em bens e valores e a suspensão das atividades de sete empresas relacionadas à investigação.

Mas, por trás das cifras milionárias e da estrutura empresarial investigada, existe uma questão ainda mais preocupante: medicamentos falsificados chegaram à rede hospitalar e pelo menos uma unidade foi administrada a um paciente em tratamento contra o câncer, segundo as informações reunidas pelas autoridades.

A descoberta que deu início à investigação

O caso começou em 2024, quando o fabricante de um imunoterápico de alto custo identificou a comercialização de uma unidade falsificada a um hospital da cidade de São Paulo.

O produto havia sido fornecido por uma distribuidora de medicamentos sediada em Araraquara.

A análise realizada pelo fabricante apontou que o conteúdo não apresentava o princípio ativo necessário para o tratamento. Posteriormente, a falsificação também foi confirmada por perícia oficial.

Entre os medicamentos investigados está o Keytruda, cujo princípio ativo é o pembrolizumabe, utilizado em tratamentos de diferentes tipos de câncer. A ausência dessa substância significa que o produto não oferece a ação terapêutica esperada de uma dose autêntica.

A partir da descoberta, os investigadores começaram a examinar a origem dos medicamentos, a documentação comercial e as empresas envolvidas na distribuição.

Mais de R$ 1,5 milhão em notas fiscais e vendas para sete estados

A primeira fase da Operação Laziosi, realizada em novembro de 2024, revelou indícios de uma rede de empresas ligadas à distribuidora investigada.

Algumas dessas empresas, conforme a apuração, não apresentavam estrutura operacional compatível com as atividades declaradas nos endereços registrados.

Somente entre janeiro e novembro de 2024, a distribuidora emitiu notas fiscais superiores a R$ 1,5 milhão relacionadas à comercialização do medicamento investigado, com destinatários em pelo menos sete estados brasileiros.

A movimentação levou as autoridades a aprofundar a análise financeira, incluindo suspeitas de utilização de empresas e terceiros para ocultação de recursos.

Mesmo após a primeira operação, medicamentos suspeitos continuaram circulando

Um dos episódios mais graves teria ocorrido em abril de 2025.

Segundo a investigação, a distribuidora comercializou nove unidades falsificadas de outro medicamento oncológico para um hospital do interior paulista.

De acordo com as informações prestadas pelo estabelecimento às autoridades, uma dessas unidades chegou a ser administrada a um paciente.

As oito restantes foram recolhidas e substituídas por produtos de um lote que coincidia com uma carga anteriormente roubada em Minas Gerais.

O caso levanta questionamentos sobre os mecanismos de controle, rastreabilidade e segurança na cadeia de fornecimento de medicamentos de alto custo.

Até o momento, não foram divulgadas informações conclusivas sobre as consequências clínicas para o paciente que recebeu o produto falsificado.

Justiça determina bloqueio milionário

Com o avanço das investigações, a segunda fase da operação resultou em três prisões preventivas, 18 buscas e apreensões e medidas judiciais destinadas a interromper as atividades investigadas.

O bloqueio de até R$ 15 milhões busca preservar bens e recursos que poderão ser utilizados para eventual ressarcimento de danos.

A suspensão de sete empresas também pretende impedir a continuidade de operações comerciais consideradas suspeitas pelas autoridades.

Na capital paulista, os policiais localizaram medicamentos oncológicos cuja autenticidade ainda será analisada.

A operação foi coordenada pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic) de Ribeirão Preto, com participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, e apoio de equipes especializadas da Polícia Civil.

Um crime que ameaça muito mais do que o patrimônio

A falsificação de medicamentos utilizados no tratamento contra o câncer representa um risco especialmente grave porque envolve pessoas que dependem de terapias complexas, muitas vezes de alto custo, e para as quais o tempo pode ser decisivo.

Um produto sem o princípio ativo necessário pode comprometer a eficácia do tratamento, além de provocar atrasos na adoção de medidas médicas adequadas.

A investigação também expõe a importância da fiscalização sobre fabricantes, distribuidores, fornecedores e estabelecimentos hospitalares.

Não se trata apenas de descobrir quem produziu ou comercializou medicamentos falsificados, mas de esclarecer como esses produtos conseguiram chegar a instituições de saúde.

Investigações continuam

Documentos, equipamentos eletrônicos e medicamentos apreendidos serão analisados para identificar possíveis novos envolvidos, esclarecer a dimensão da rede investigada e rastrear os recursos financeiros movimentados.

Os três presos permanecem na condição de investigados, e as responsabilidades individuais deverão ser estabelecidas no decorrer do processo, com garantia do direito de defesa.

A Operação Laziosi ainda não chegou ao fim.

E deixa uma questão que ultrapassa as fronteiras das cidades onde ocorreram as buscas: como garantir que um medicamento adquirido para salvar uma vida seja, de fato, aquilo que promete ser?

Para milhares de famílias que convivem diariamente com o câncer, a resposta não pode depender apenas da confiança. Ela exige fiscalização, rastreabilidade e responsabilidade em todas as etapas do sistema de saúde.

Jornal O Guaíra | Redação

Fontes: Agência SP, Polícia Civil de São Paulo, Ministério Público de São Paulo e informações complementares divulgadas pela imprensa em 5 de novembro de 2026.


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