Maria de Lourdes Garcia Bruno Alves, a querida Tia Lurdinha – um patrimônio da Educação Infantil de nossa cidade – é mãe de Marco Aurélio, Samuel e Saulo. É avó de cinco netos e um bisneto. Falando um “português” corretíssimo, pautou a entrevista inteira inserindo a palavra “gratidão” a todo momento. Calma, tranquila, ciente de que deixou um legado de carinho e dedicação aos inúmeros alunos e aos filhos, Tia Lurdinha repetia para seus filhos: “O boi que vocês têm no pasto é o lápis”. Nas fazendas que lecionou deixou afilhados de batismo e de casamento, retribuição do amor que Tia Lurdinha emana por onde passa. Para ela, não há caminho sem Deus, por isso mesmo procura viver como cristã. Tia Lurdinha deixa claro seu amor ao magistério, seu amor à vida e a tudo que ela lhe proporcionou!
Em que ano se formou no Magistério?
Foi no ano de 1961, no Colégio Maria Auxiliadora, em Barretos. Me hospedava na casa da Senhora Zenaide Junqueira, uma pessoa maravilhosa. Uma verdadeira mãe: enérgica, formal, maravilhosa!
Quais as primeiras escolas que lecionou?
Foi na escola da Fazenda Jacaré, que reunia o primeiro, o segundo e o terceiro ano. As crianças levavam o caldeirãozinho com a merenda. A escola ficava longe da casa da sede e basicamente caminhávamos dois aluninhos e eu. Passamos alguns apertos, mas grandes alegrias também. Lecionei no Lageado, depois fomos para José Bonifácio, fomos também em Icém e depois para Guaíra. Dei aulas particulares e alunas de Admissão. Em 1977, fui para a Fazenda Colorado de manhã e, depois do almoço, à fazenda Glória.
Teve aquela famosa investida das vacas?
Com certeza (risos). A caminhada começava com quatro, cinco alunos e ia diminuindo. Mas os companheiros mesmo eram: o João Shiguero e o Antônio Marreta. Um dia, estávamos voltando da escola e as vacas foram soltas! Quando passamos em um determinado lugar, um bezerrinho atravessou a estrada e a vaca veio atrás. Eu tinha uma bicicleta e a usei como arma para nos proteger, eram dois garotinhos grudadinhos em mim! A vaca bufava, mas o bezerrinho berrou longe e ela nos deixou!
Como a Tia Lurdinha resume sua trajetória na Educação?
Fui muito feliz! Amei e amo o que fiz! Só tenho que agradecer! Todos os meus diretores acrescentaram muito na minha caminhada: José Maria Bandieira, Dudley, Moacir Rodrigues, Domingos Corsi, João Mauricio, a Fifi, Denise, Dr. Alísio, Marcelo Freitas… Pessoas maravilhosas! Estes diretores foram, todos eles, respeitosos, educadíssimos, sou grata a cada um deles. Diretor, para mim, é uma palavra sagrada, só tenho que agradecer. Agradeço às colegas que acham que eu ensinei algo a elas. Pelo contrário!
Nunca parou?
Nunca parei, nunca tive uma licença gestante! Quando tive as crianças ficava uma semana em casa. Naquele tempo ganhávamos se trabalhássemos!
Como conheceu o Professor Arlindo Alves?
Conheci o Arlindo quando ainda estudava no Francisco Gomes, no prédio velho, onde hoje é a Pracinhas dos Estudantes. Ele já era Professor! Ele vinha nas reuniões de professores que aconteciam em um prédio onde hoje é a empresa Kaveni. Ele ficava na janela e haviam cortado uma árvore grande no pátio, eu ficava naqueles “toquinhos” para enxergá-lo. Assim começou nosso namoro. Namoramos durante cinco anos. Nos casamos em 1962 e vivemos casados até 2008.
Você faria tudo de novo?
Sim, tudo de novo, escolheria a mesma família… O Arlindo, os mesmos amigos, os mesmos filhos, os netos, os diretores, os alunos! Não mudaria nada!
Recentemente recebeu uma homenagem na Escola Ana Lelis. Como foi?
Foi maravilhoso! Naquela escola, o Marcelo de Freitas e Dr. Aloízio formam uma dupla perfeita. Dr. Aloízio com toda sua firmeza e dedicação, em sintonia com a Educação; o Marcelo com o dom do “sempre melhorar” em tudo, a grade escolar, sempre procurando trazer oportunidades, experiências novas, Marcelo é um inovador! Sempre buscando além do que já tinha!
Já “caiu” a ficha de que agora não tem mais escola?
Eu passei a minha vida inteira de equilibrista! Tive muitas perdas, chorei muito, busquei muito em Deus e no trabalho. Agora, estou empenhada em ser feliz. Há uma informação na cidade de que eu vou me mudar para Frutal! Não vou!
Como assim?
Eu vou sempre a Frutal (MG), que é onde o Saulo reside. Numa dessas idas, há dois anos, saí na porta da casa dele e vi, do outro lado da rua uma casinha com a placa: “vende-se”. Li a placa e senti um arrepio, como se Deus estivesse falando comigo! Chamei o Saulo e ele, como filho maravilhoso que é, à tarde já estávamos com a chave na mão. Uma semana depois nós já tínhamos comprado a casa e passei estes anos todos arrumando a casinha. O Marco e o Samuel moram longe, Saulo é o mais próximo! Então, hoje a minha meta é passar uns dias em Frutal e uns aqui. Estou prestes a completar 79 anos e daqui para frente é o caminho de Deus. Eu sei o que é uma velhice e entendi o sinal de Deus que ali poderia ser um bom lugar para mim.
Você é muito ligada à família, não é?
Sim! Todos os domingos, às quatro horas, faço café esperando minhas as sobrinhas. E elas nunca deixaram de vir! Vem a Rosane, a Rita, a Keila, a Rosimerie, a Deise, a Celinha; não faltam. Sou muito feliz aqui! Estou seguindo o caminho que Deus está me indicando.
Hoje, qual a sua maior alegria quanto à sociedade?
Não existe uma satisfação maior do que a alegria de entrar em consultório médico, em um dentista, em uma empresa e me deparar com um ex-aluno. Isso ocorre frequentemente! Sou eternamente grata a Deus por isso! Sou grata à vida que Deus me proporcionou! Eu não tenho o que falar! Nunca passei falta de nada. Acho que sou uma pessoa vitoriosa!
Para terminar…
Eu só tenho mesmo que agradecer, sempre! Agradeço a todos, em Deus em primeiro lugar, agradeço a tudo na vida e falo sempre: “Se houver outra vida, quero ser professora!”