Aparecida Angélica: uma gostosa infância retratada nos livros

Aparecida Angélica Garcia, professora aposentada, escritora, poetisa, mãe de Diógenes e Idelminha

Entrevistas
Guaíra, 16 de março de 2020 - 14h13

Aparecida Angélica Garcia, professora aposentada, escritora, poetisa, mãe de Diógenes e Idelminha. É avó de Ariane, da Duda e do Arthur. Tem dois livros publicados: “A macaquinha Internética” e “Invasão no milharal”, todos com personagens baseados nos seus amigos de infância. Na adolescência, frequentou o Grêmio, as quermesses – se lembra do Padre Edisson, ainda jovenzinho e do Padre Valdeci, do Nego Gasparino, Amir, Aguinaldo, Jesus Osório, Enderlite, Maria Lucia, Nilcinha, Tereza Braga, Gi Lelis. Lembra-se dos correios elegantes, das músicas de “alguém oferecendo apaixonadamente para alguém”. Uma época distante e feliz.

 É nascida em Guaíra?

Nasci na fazenda, na verdade, era um sítio do papai, de nome Soledade, com a Dona Bepa de parteira.

Então, veio para cidade?

Sim, quando vim para Guaíra, eu morava na Av. 3 com a Rua 14; minhas primeiras amizades foram a Rosa Omoto, a Tereza, a Olguinha, a Tite, a Rosina, meus primos: o Tonho, o Zé, Adalberto, Carlinhos, o Tonicão, o Betinho, a Vera, o Mauro, Laercio, Laerte,  a Katia Regina Alves, a Sandra, a Tania, o Mané Padre, a Olivina…

E aí?

Aí, quando chegávamos da escola, íamos brincar embaixo de duas mangueiras enormes, no quintal de casa! A Tânia, veja só, era a médica da turma (hoje ela é médica); eu era professora e vendia “as coisas” – olha só – e esta foi um prenúncio da  minha realidade depois de adulta! A Sandra era a princesa que se enrolava nas cortinas da mamãe e saia dando ordens (risos). O Zé Henrique, meu irmão, o Panquinha e o Paulo Lelis brincavam de fazer tijolinhos: enchiam as caixinhas de fósforo de barro e deixavam secar.

Não tinha perigo de nada?

Ah, tinha sim! Nós é que não sentíamos isso. Os “meninos” iam capturar marimbondos com uma garrafa, enchiam garrafas com esses marimbondos e apostavam quem pegava mais; uma vez quase puseram fogo no caramanchão… Era tudo brincadeira. 

Assim foi sua infância?

Infância maravilhosa, aliás! Eu vivia com os bolsos cheios de pedrinhas para jogar bugalhas, brincávamos de boneca também. Olha só até onde ia a imaginação: a Rosina  Pugliese e eu víamos os velórios e então enterrávamos nossas bonecas nos canteiros da mamãe. Chorávamos, levávamos flores, fazíamos cruzinhas… 

Uma infância saudável e feliz?

Sim, mas, uma vez, vimos as pessoas passando nas casas com os quadros de santos embrulhados em um pano pedindo esmola, então, o Zé Henrique e eu inventamos de fazer a mesma coisa. Fomos à casa da Dona Bebé, mãe do Dr. Mauro, pedir esmola para Nossa Senhora Aparecida. Ela nos reconheceu, perguntou de quem éramos filhos e informou que ia contar para nossa mãe! Foi uma surra memorável!

As traquinagens melhoraram com a adolescência?

Que nada! Eu brincava de casinha dentro da Igreja, inventei de subir as escadas – da Igreja velha – para ver o sino. Assustei porque o sino era imenso e não sabia voltar! O Padre Cruz teve que ir lá me buscar! Nunca mais voltei a brincar dentro da Igreja!

Você foi da “Cruzadinha” da Igreja?

Fui sim, a Cruzadinha era as meninas inteiramente vestidas de branco, saia plissada, boina, meia até o joelho, tudo branco. Íamos assim para a Igreja, todos os domingos. Um dia, choveu muito, eu estava na casa paroquial e quando fui me dirigir para a Igreja, a enxurrada estava forte, era um barro só. Não tinha asfalto e a enxurrada era um caldo grosso de barro. Tirei as meias e os sapatos e fui assim mesmo. Estava “embarredada” praticamente da cabeça aos pés.  Eu era responsável para “passar” o pratinho para os fiéis depositarem a sua contribuição. Quando minha mãe me viu naquele estado, não quis acreditar! Me fuzilou  com os olhos! Quando cheguei  em casa foi uma tragédia. Aquele foi o meu último dia de “cruzadinha”.

Você esteve muito tempo fora de Guaíra! Por que voltou?

Voltei porque minha filha – Idelminha – necessitava de cuidados médicos! Quando ela tinha suas crises, em São Paulo, ela saía com chuva, com frio e eu saía a sua procura e estava ficando difícil! Então, fiz uma reunião familiar com os irmãos e falei que iria voltar! Aqui, a cidade todos são conhecidosn. 

E foi melhor assim?

Graças a Deus deu tudo certo! Aqui tivemos um tratamento médico eficaz!  Aqui o calor é outro! O pessoal trabalha com muito amor! Cheguei aqui em 6 de Novembro de 2015, o CAPS trabalha muito bem, com uma equipe sensacional. A saúde de Guaíra é muito comprometida, é nota dez!

Toda essa vivência foi o suporte para escrever os seus livros?

Eu tenho dois livros publicados. Eu tenho alguns no rascunho. Só publiquei o segundo porque o prefeito da época, Sergio de Mello, foi um grande parceiro. O atual prefeito, Zé Eduardo, também me deu suporte, mas com tudo o que vem acontecendo, não tenho disposição de pedir empenho para meus livros.

Os personagens desses livros são baseados nos seus amigos?

Tudo baseado nos meus amigos! Nenhum deles achou ruim. São ratos, urubus, macacos… O Jonas Lelis acha graça. Dona Leda uma vez contestou dizendo que eu coloquei o filho dela como personagem, aí eu falei: “personagem principal!”

Como se dá a sua inspiração?

Por exemplo, numa viagem daqui até São Paulo, eu escrevo um livro, na memória! A história vem! Simples assim! 

Lembra-se dos festivais da Rádio Cultura?

Eram aos domingos! Os patrocinadores me procuravam para os programas de calouros. Era o Seu Almir Aragão e outro locutor de Barretos. Incendiávamos o auditório da Rádio Cultura. 

Você faz a política, mas não gosta de ser política?

Pois é! Uma vez que o Ademar de Barros esteve em Guaíra, veio até minha casa me convidar para ser candidata a vereadora. Vieram também o tio Policarpo, o Dr. Nicanor, o Fecha Roda, Dr. Chubaci, Irineu Quácio, o João José… Essa casa se encheu de pessoas importantes e eu não aceitei de espécie nenhuma! Eu brincava com a Rosina Pugliese, com os meninos do João Bosco, Mabel, que eram meus amigos e seus pais eram contrários na política dos meus pais! Eu não entendia isso!

Você teve influência na política municipal?

Uma vez, Dr. Orlando me chamou para formar uma ONG, eu já lidava com um grupo de jovens nesta época. Consegui até um estatuto para criar esta ONG. Neste meio de tempo, consegui um sítio em Uberaba para levar os jovens que necessitavam fazer um tratamento, esta espécie de casa de recuperação, mas uma mãe desses garotos ligou para mim pedindo pelo amor de Deus que não fizesse isso. Através desse garoto eles tinham cesta básica, auxílio moradia e outros benefícios. Fiquei muito desgostosa com isso e deixei esta ideia de lado!

Qual a sua rotina?

Ainda escrevo muito, reescrevo o que já escrevi. Cuido das plantas.

O que Guaíra representa para você?

Tudo! Tudo! Meu berço, meu aconchego, me sinto abraçada, protegida. Não existe lugar melhor para mim do que Guaíra.

Abaixo, uma poesia dedicada ao Tiãozinho Queirós e Zé Henrique, de autoria de Aparecida Angélica Garcia

Pés descalços no chão de terra

Rua sem asfalto

Bolsos de pedra

Estilingue na mão

Assim foi minha infância

A igreja no centro

O coreto no jardim

Tinha sonhos de

Ganhar dinheiro

E comprar tudo pra mim

Vivi esse sonho

E fiz realizar

Pegando um caixote

E saí a engraxar

Certo dia, deparei

Com a realidade de frente

Abandonei tudo

E segui uma vida diferente

Quando percebi tudo ficou

Só no sonho de um menino carente!

 

 

 

 

 


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