A safra que o tempo não conseguiu apagar

Mais de três décadas de amizade e uma história que ajudou a transformar o agro de Guaíra

Cidade
Guaíra, 16 de outubro de 2026 - 07h37

Há mais de três décadas, um grupo de engenheiros agrônomos de Guaíra decidiu que a amizade construída entre lavouras, estradas de terra e desafios profissionais merecia um lugar especial no calendário. O tempo passou, a agricultura se transformou, muitos cabelos ficaram brancos e algumas cadeiras já não são ocupadas pelos mesmos companheiros. Mas uma coisa permaneceu: a vontade de estar juntos.

Foi esse sentimento que reuniu, no último fim de semana, cerca de 33 a 34 profissionais na área do Destre, em Guaíra, para mais uma edição do tradicional churrasco dos agrônomos. Como acontece há aproximadamente 32 anos, bastaram uma churrasqueira acesa, uma mesa de truco e a chegada dos primeiros amigos para que as histórias começassem a surgir.

A tradição nasceu da iniciativa de profissionais como Laércio e Valderez, lembrados entre aqueles que ajudaram a organizar os primeiros encontros. Hoje, Braguim, Destre e Gustavo Santana, entre outros companheiros, assumem a responsabilidade de manter acesa essa chama que atravessa gerações.

Em outras épocas, o encontro chegou a reunir 60 ou 70 participantes. Hoje são menos. Alguns já partiram, outros tomaram caminhos diferentes e há aqueles que, por circunstâncias da vida, já não conseguem estar presentes. Mas quem continua chegando sabe que aquele churrasco representa muito mais do que uma confraternização.

Ali estão homens que ajudaram a escrever a história da agricultura de Guaíra.

Profissionais que conheceram um campo muito diferente daquele que vemos hoje. Que percorreram propriedades quando a tecnologia ainda dava seus primeiros passos, enfrentaram safras difíceis, buscaram soluções onde faltavam recursos e acompanharam de perto a transformação da agricultura regional.

Muito antes de a palavra agronegócio ganhar a dimensão que possui atualmente, esses engenheiros agrônomos já estavam no campo, orientando produtores, compartilhando conhecimentos, enfrentando problemas e ajudando a construir os resultados que hoje fazem parte da força econômica de nossa região.

E quantas histórias cabem nesses mais de 30 anos? Quantas amizades nasceram de uma visita técnica, de uma dificuldade superada ou de uma conversa à beira de uma lavoura? Quantas decisões tomadas ao lado de um produtor contribuíram para transformar a realidade de uma propriedade e de uma família?

Talvez nem eles próprios tenham a dimensão do legado que construíram.

O mais bonito é perceber que, depois de tantos anos, alguns daqueles que participaram das primeiras edições continuam presentes. Já não precisam provar competência, disputar espaço ou falar sobre produtividade. Naquele ambiente, os títulos e as conquistas profissionais dão lugar a algo muito mais simples e precioso: o prazer de reencontrar um amigo.

Entre uma partida de truco, uma provocação bem-humorada e as lembranças que parecem melhorar a cada ano, também existe uma preocupação. A participação das novas gerações ainda é pequena, e esses profissionais sabem que uma tradição só permanece viva quando alguém se dispõe a continuá-la.

Gustavo Santana traduziu esse sentimento em poucas palavras:

“Enquanto a gente estiver vivo, vai ter.”

A frase, dita com a simplicidade de quem fala de um churrasco entre amigos, carrega um significado muito maior. Porque ninguém consegue deter o tempo, mas podemos escolher o que fazer com os anos que ele nos oferece. E esses agrônomos escolheram preservar aquilo que a vida lhes deu de mais valioso: as amizades.

Guaíra tem muito a agradecer a essa geração de profissionais. Parte da agricultura que hoje admiramos passou pelo conhecimento, pelo trabalho e pela dedicação de homens que ajudaram a abrir caminhos quando tudo era mais difícil. Seus nomes podem não estar gravados em monumentos, mas estão presentes na história de muitas propriedades, nas conquistas de inúmeros produtores e no desenvolvimento de nossa região.

E há algo que merece ser dito aos mais jovens: sentar-se à mesa com esses profissionais não significa apenas ouvir histórias antigas. Significa conhecer, pela voz de quem viveu, uma parte da história do agronegócio que não está nos livros, nas estatísticas ou nas modernas telas dos computadores.

Ao final, quando a churrasqueira se apaga, o baralho é guardado e cada um toma o caminho de casa, fica a certeza de que o encontro cumpriu novamente sua missão. Mais um ano de amizade foi acrescentado a uma história que já atravessa três décadas.

Que a churrasqueira continue acesa por muitos anos. Que nunca falte uma cadeira para um velho amigo e que os mais jovens aprendam a ocupar seu lugar nessa roda. Porque, se a agricultura de Guaíra tem hoje tantos frutos para mostrar, é justo reconhecer aqueles que ajudaram a preparar a terra, plantar as primeiras sementes e cuidar dessa história.

E, para os que estão juntos desde o primeiro churrasco, fica uma certeza ainda mais bonita: a maior safra que colheram ao longo desses anos não está nas lavouras. Está nas amizades que o tempo não conseguiu apagar.


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