Como ser chato no WhatsApp da família

Editorial
Guaíra, 11 de outubro de 2026 - 06h41

Existem muitas maneiras de perder a simpatia dos parentes, mas poucas são tão eficientes quanto transformar o grupo da família em um comitê eleitoral. E, como estamos em época de política, resolvemos oferecer um pequeno manual para aqueles que desejam aperfeiçoar essa habilidade. Afinal, ser inconveniente é relativamente fácil. Ser um chato profissional exige dedicação, persistência e, principalmente, absoluta falta de desconfiômetro.

Comece logo pela manhã. Antes mesmo de desejar um bom dia, encaminhe um vídeo de sete minutos explicando por que seu candidato é a última esperança da humanidade. Não importa se alguém está trabalhando, dormindo ou simplesmente tentando tomar café em paz. Sua missão é muito mais importante que essas pequenas necessidades humanas.

Em seguida, mande uma notícia alarmante, preferencialmente escrita em letras maiúsculas e acompanhada de vários pontos de exclamação. Não perca tempo verificando se é verdadeira. O importante é provocar indignação. Se algum familiar questionar a informação, responda que ele está sendo manipulado. É uma técnica infalível para encerrar qualquer possibilidade de conversa inteligente.

Durante o almoço, encaminhe mais cinco vídeos, três figurinhas ofensivas e uma mensagem começando com a frase: “Acorda, Brasil!”. Se ninguém responder, não desanime. O silêncio certamente significa que todos estão impressionados com sua sabedoria política. Portanto, dobre a quantidade de mensagens.

Outra estratégia importante é nunca admitir que alguém possa pensar diferente. Se um irmão, primo ou cunhado discordar de você, trate a divergência como uma falha grave de caráter. Afinal, uma pessoa com quem você dividiu a infância, as festas de Natal e tantos momentos importantes da vida não pode simplesmente ter uma opinião própria.

Também não permita que assuntos banais atrapalhem sua militância. Se alguém publicar a fotografia de um recém-nascido, aproveite para explicar como o futuro daquela criança depende da vitória do seu candidato. Se uma tia anunciar que fez um bolo, encontre uma maneira de relacionar o preço da farinha ao governo. E, se alguém comunicar um aniversário, não desperdice a oportunidade de lembrar que o país está em perigo.

Mas existe uma regra de ouro: jamais pergunte se as pessoas desejam receber suas mensagens. Quem gosta de incomodar não pode correr o risco de ouvir um não. Continue encaminhando tudo, de preferência várias vezes, porque uma opinião repetida cinquenta vezes certamente se transforma em verdade. Pelo menos na cabeça de quem a envia.

Com um pouco de disciplina, os resultados aparecerão. Seus familiares começarão a silenciar o grupo, evitar suas mensagens e, eventualmente, até suas visitas. Não interprete isso como rejeição. Considere uma demonstração de que sua campanha está causando impacto.

E quando chegar o Natal, não estranhe se a conversa estiver mais fria, os abraços mais rápidos e algumas cadeiras permanecerem vazias. Você terá conseguido uma façanha extraordinária: transformar pessoas que sempre gostaram de você em gente que prefere manter distância.

O mais curioso é que, depois de tudo isso, ainda haverá quem reclame da intolerância dos outros.

No fim das contas, seu candidato poderá até ganhar a eleição. Mas você corre o risco de perder algo muito mais importante: a vontade que sua própria família tinha de conversar com você.

E fica uma última recomendação: antes de encaminhar este texto para o grupo da família, pense bem. Se você ficou ofendido, existe uma boa possibilidade de que o manual tenha encontrado seu público-alvo.

 


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