A galinha dos ovos de ouro

Editorial
Guaíra, 14 de agosto de 2026 - 07h51

A maioria conhece a fábula da galinha dos ovos de ouro. E, claro, conhece o final.

O curioso é que continuamos repetindo a história. Porque a vida real está cheia de galinhas dos ovos de ouro. E, curiosamente, quase sempre percebemos o valor delas quando já não estão mais lá.

O que talvez não tenhamos aprendido tão bem é reconhecer a galinha enquanto estamos ocupados contando os ovos. Uma empresa que levou anos para construir mercado. Uma cidade que desenvolveu uma vocação. Uma terra que levou décadas para se tornar produtiva. Uma instituição que construiu credibilidade. Um projeto que finalmente começou a dar resultado.

Tudo isso pode produzir ovos. Mas, em algum momento, aparece a pergunta que parece perfeitamente razoável:

“Quanto dá para tirar daqui agora?”

E é justamente aí que mora o perigo.

Porque o imediatismo tem uma característica curiosa: quase sempre consegue parecer racional. Corta-se um investimento para economizar. Reduz-se uma estrutura para ganhar eficiência. Interrompe-se um projeto para melhorar o resultado. Explora-se mais para produzir mais. Troca-se o que levou anos para construir por aquilo que pode aparecer no próximo balanço.

O ovo aparece. A comemoração também. A conta da galinha, porém, fica para depois.

E o depois costuma ser caro. Talvez porque saibamos medir muito bem o que entra e muito mal o que deixa de existir. É fácil contar o que ganhamos. Difícil é medir o que perdemos quando comprometemos a capacidade de continuar ganhando.

É por isso que algumas decisões parecem excelentes hoje e desastrosas alguns anos depois. Não porque faltou resultado.Mas porque faltou visão.

A pergunta nunca deveria ser apenas:

“Quanto podemos produzir?”

Talvez devesse ser:

“O que precisamos preservar para continuar produzindo?”

Porque existe uma diferença enorme entre extrair o máximo de alguma coisa e destruir sua capacidade de continuar produzindo.

Uma coisa consome. A outra perpetua.

E talvez seja essa a verdadeira provocação daquela velha fábula que atravessou nossa infância: nós realmente aprendemos a lição ou apenas decoramos o final?

Porque saber que a galinha morreu é fácil. Difícil é perceber quando estamos começando a matá-la.


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