A verdade que nos convém

Editorial
Guaíra, 25 de outubro de 2026 - 12h22

No filme Matrix, Neo precisa escolher entre duas pílulas. Uma permite que continue vivendo na ilusão, acreditando que tudo é como parece. A outra o faz despertar para a realidade, mesmo que a verdade seja difícil de aceitar.

No cinema, Neo sabe que precisa fazer uma escolha. Fora das telas, o problema é ainda maior: nem sempre percebemos que existe algo a ser questionado. Muitas vezes, acreditamos já conhecer a verdade sem sequer desconfiar de que podemos estar enganados.

Quantas vezes defendemos alguém mesmo diante de fatos que mostravam seus erros? Quantas vezes ignoramos uma informação porque contrariava nossa opinião? E quantas vezes preferimos continuar enganados apenas para não dar razão a quem pensa diferente?

Na política, essa contradição fica ainda mais evidente. Se o candidato que defendemos comete um erro, encontramos uma justificativa. Se o adversário faz exatamente a mesma coisa, exigimos punição. O fato é o mesmo, mas a sentença muda conforme a nossa preferência. E ainda chamamos isso de justiça.

Hoje, dia de eleição, milhões de brasileiros vão às urnas. Alguns por convicção, outros por esperança, medo ou rejeição. Mas existe uma pergunta que vale para todos: estamos escolhendo livremente ou apenas repetindo aquilo que aprendemos a defender?

O problema não é acreditar em alguma coisa. É achar que aquilo em que acreditamos não pode estar errado. Aceitamos com facilidade tudo o que confirma nossas opiniões e desconfiamos daquilo que as contraria. Aos poucos, deixamos de procurar a verdade e passamos a procurar argumentos que nos deem razão. E, sem perceber, podemos trocar a liberdade de pensar pelo conforto de ouvir apenas aquilo que queremos.

Talvez a escolha mais difícil não esteja entre uma pílula e outra, mas entre acreditar sem questionar e ter coragem de enfrentar os fatos. Ter opinião própria não significa estar sempre certo, assim como mudar de ideia não significa ser fraco. A liberdade está em pensar sem precisar da aprovação dos outros e reconhecer os fatos, mesmo quando contrariam nossas preferências.

Não existe vergonha em mudar de opinião. Vergonha seria perceber que algo está errado e continuar defendendo apenas para não dar razão a quem pensa diferente.

Porque a liberdade de pensamento não está em ter sempre uma resposta pronta. Está também na coragem de fazer perguntas às próprias certezas.

Uma boa eleição a todos!


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