Há coisas que fazemos tantas vezes ao longo da vida que já nem percebemos o privilégio que representam. Abrir uma torneira, acender uma lâmpada, tomar um banho quente ou simplesmente colocar o celular para carregar. Gestos tão comuns que parecem não ter importância. Até descobrirmos que, para milhões de brasileiros, aquilo que fazemos sem pensar continua sendo um sonho distante.
Recentemente, um vídeo mostrou as condições precárias em que vivem famílias do Nordeste brasileiro. Gente simples, trabalhadora, que enfrenta dificuldades que muitos de nós sequer conseguimos imaginar. Pessoas para quem conseguir água exige esforço, para quem a eletricidade nem sempre está disponível e para quem cada dia começa com desafios que deveriam ter sido superados há décadas.
É curioso observar como o progresso chega de maneiras tão diferentes. Temos celulares capazes de conversar com o mundo inteiro, mas ainda existem brasileiros que enfrentam dificuldades para encontrar uma tomada com energia. Discutimos inteligência artificial, carros autônomos e viagens espaciais, enquanto algumas famílias precisam descobrir como conseguir água para preparar o almoço.
E não estamos falando de pessoas que desistiram da vida ou que esperam tudo de braços cruzados. Pelo contrário. São homens e mulheres que trabalham, criam seus filhos, preservam sua dignidade e encontram maneiras de seguir adiante, mesmo quando quase tudo parece jogar contra. Uma honestidade silenciosa que não costuma aparecer nas grandes campanhas publicitárias.
Talvez o que mais incomode nessas imagens não seja a pobreza em si, mas o fato de termos aprendido a conviver com ela. Vemos, lamentamos, compartilhamos e seguimos a vida. Afinal, basta fechar a tela do celular para que aquela realidade desapareça dos nossos olhos. Mas não da vida de quem precisa enfrentá-la.
O Brasil não é um país sem recursos, sem tecnologia ou sem capacidade de transformar realidades. É um país que ainda convive com desigualdades profundas e necessidades básicas não atendidas. E nenhuma promessa de modernidade deveria nos fazer esquecer disso.
Não se trata de romantizar a pobreza, muito menos de transformar a resistência dessas famílias em desculpa para a falta de condições dignas de vida. Ninguém deveria precisar ser extraordinariamente forte apenas para sobreviver.
Na próxima vez que abrirmos uma torneira, talvez valha a pena prestar atenção naquele gesto tão simples. A água que escorre sem esforço representa algo que, para muita gente, ainda não chegou.
Porque um país não deveria medir seu progresso apenas pelo que é capaz de construir, mas também pelo que ainda permite faltar.

