Tem palavra que explica, palavra que confunde e palavra que, dependendo de onde é colocada, causa um estrago danado. Na política, algumas expressões têm uma habilidade curiosa: permitem que o público entenda uma coisa e que, mais tarde, quem falou explique outra. E o mais interessante é que, enquanto ninguém pergunta o que realmente se quis dizer, todas as interpretações parecem caber na mesma frase.
O curioso é quando a ambiguidade deixa de ser um acidente da linguagem e vira um esconderijo conveniente. A palavra é forte o suficiente para lançar suspeitas, mas vaga o bastante para permitir uma explicação diferente quando alguém cobra esclarecimentos. É a velha história de jogar a pedra e esconder a mão. Só que, nesse jogo, mesmo quando a mão aparece, ainda há quem diga que aquilo nem era uma pedra.
Veja a palavra “desvio”. Pode significar mudança de caminho, alteração de rota ou de finalidade. Até aí, nada demais. Mas experimente colocá-la ao lado de “dinheiro público”. Pronto! O cidadão já imagina uma irregularidade, e uma discussão administrativa ganha contornos de escândalo.
Quem escutou pode entender que houve uma ilegalidade. Quem falou poderá explicar que se referia apenas à mudança de destino de um recurso. Uma palavra, dois sentidos e uma saída de emergência sempre à disposição. Convenhamos, uma situação bastante confortável para quem prefere deixar as interpretações em aberto.
O problema é que a suspeita não espera pelo esclarecimento. Atravessa conversas, ganha versões e chega a pessoas que sequer ouviram a declaração original. Quando os documentos aparecem, muita gente já tirou suas conclusões. Afinal, a suspeita viaja de primeira classe, enquanto a verdade enfrenta uma longa fila carregando papelada.
Fiscalizar o dinheiro público é obrigação, não favor. Mas quem ocupa uma tribuna também precisa compreender o peso das próprias palavras. Existe uma diferença enorme entre apontar uma irregularidade com provas e utilizar uma expressão capaz de fazer o público acreditar que ela aconteceu. Afinal, uma mudança de finalidade e um desvio ilegal são situações distintas, e as declarações precisam acompanhar os fatos.
Uma tribuna pode levantar perguntas. O que não pode é transformar suspeitas em respostas. E existe uma maneira surpreendentemente simples de colocar esse jogo à prova. Basta perguntar:
Afinal, quando você falou em desvio, estava se referindo a uma mudança de finalidade ou afirmando que houve uma irregularidade?
Parece uma pergunta simples, não é? Mas certas perguntas têm o curioso poder de transformar uma situação confortável em um momento bastante desconfortável.
Que o diga Alice. Em Alice no País das Maravilhas, a Lagarta não precisou de um grande discurso para desconcertar a menina. Bastaram três palavras: “Quem é você?”
E talvez esteja aí uma das grandes lições daquela história: uma pergunta aparentemente inocente pode ser muito mais desconcertante do que uma longa explicação.
Principalmente quando, para respondê-la, é preciso abandonar o conforto de dois sentidos e assumir apenas um.

