Muito se fala, especialmente em períodos eleitorais, que o Brasil precisa de um projeto de nação, e não de um projeto de poder. A frase é bonita, rende discursos e aplausos. Mas existe uma contradição que poucos parecem dispostos a enfrentar: como construir um projeto para mais de 200 milhões de brasileiros se, em tantas cidades, os próprios agentes públicos não conseguem sentar à mesma mesa para discutir o futuro de algumas dezenas de milhares de habitantes?
É nos municípios que a vida acontece. É ali que a criança precisa de escola, o trabalhador enfrenta dificuldades, o empresário esbarra na burocracia e o cidadão espera atendimento na saúde. Brasília pode anunciar grandes projetos, mas é na cidade que a população descobre se as promessas cabem dentro da realidade. E, enquanto alguns discutem quem manda, há sempre alguém esperando que alguma coisa simplesmente funcione.
O curioso é que muitos dos que defendem grandes pactos nacionais parecem incapazes de praticar o diálogo na própria comunidade. Prefeitos, vereadores e lideranças políticas, por vezes, transformam divergências pessoais em obstáculos administrativos. Uma boa proposta deixa de ser boa porque veio do adversário. Uma conquista só merece aplausos quando rende dividendos políticos. E o interesse público, que deveria ocupar a cabeceira da mesa, acaba ficando do lado de fora, esperando ser convidado.
Enquanto isso, a cidade paga a conta. Não apenas em dinheiro, mas em oportunidades perdidas, projetos interrompidos e problemas que poderiam ser resolvidos se houvesse menos vaidade e um pouco mais de responsabilidade. Afinal, ninguém recebeu uma cidade de herança, muito menos uma procuração para colocar ressentimentos pessoais acima dos interesses coletivos.
Uma democracia saudável precisa de oposição, fiscalização e debates. O que ela dispensa são agentes públicos que confundem divergência com inimizade e autoridade com propriedade particular. É perfeitamente possível discordar de um prefeito e apoiar uma boa iniciativa de sua administração, assim como reconhecer uma proposta inteligente da oposição. Isso não representa fraqueza política. Representa maturidade. Mas, para alguns, admitir que o adversário teve uma boa ideia parece exigir mais coragem do que enfrentar uma eleição.
Existe uma diferença enorme entre disputar uma eleição e administrar o resultado dela. A campanha tem prazo para terminar. Os problemas da cidade, não. Quando as urnas são fechadas, o cidadão passa a ser responsabilidade de todos os eleitos. O palanque deveria ser desmontado, mas há quem insista em governar, legislar ou fazer oposição como se ainda estivesse em campanha.
E aqui cabe uma observação que deveria ser óbvia: a população não exige que seus representantes sejam amigos. Exige apenas que tenham grandeza suficiente para não transformar diferenças pessoais em problemas coletivos. Ninguém precisa frequentar a casa do adversário ou dividir churrascos para cumprir suas obrigações. Respeito institucional não é favor, é dever.
Talvez esteja aí uma das maiores dificuldades para construirmos o tão anunciado projeto de nação. Queremos estadistas em Brasília, mas toleramos pequenas disputas de ego nas cidades. Exigimos diálogo entre presidentes e governadores, enquanto aceitamos que lideranças locais não consigam conversar civilizadamente. É uma espécie de patriotismo de longa distância: muito entusiasmo pelo futuro do Brasil e pouca disposição para resolver os problemas da própria esquina.
Um projeto de nação começa quando uma cidade estabelece prioridades que sobrevivem às eleições, quando boas políticas públicas não são abandonadas porque mudou o prefeito e quando o desenvolvimento deixa de ter dono. Obras, serviços e conquistas pertencem à população, não ao político que aparece na fotografia. Quem não consegue superar rivalidades pessoais para melhorar a própria cidade dificilmente tem autoridade moral para discursar sobre a união de um país inteiro.
E antes que alguém enxergue nessa reflexão uma crítica exclusiva ao governo ou à oposição, convém lembrar que a responsabilidade não escolhe lado. Quem governa precisa saber ouvir. Quem fiscaliza precisa saber reconhecer. E quem representa a população precisa compreender que mandato não é instrumento de vingança ou satisfação de vaidades.
Porque um projeto de nação exige grandeza para colocar o interesse coletivo acima das ambições pessoais. E enquanto houver mais disposição para derrotar adversários do que para resolver problemas, continuaremos tentando construir um grande país com pequenas disputas de poder. Afinal, numa República em que todos querem mandar, quem acaba sem voz é justamente quem deveria ter a última palavra: o povo.

