Era uma inauguração de creche.
Uma grande obra. Centenas de crianças serão recebidas ali, em um espaço novo, feito para abrigar começos, descobertas e possibilidades. Uma obra que, por si só, já chamaria atenção pela dimensão e pelo que representa.
Mas, em meio à grandiosidade, uma cena simples roubou o olhar.
Um grupo de crianças cantando o Hino Nacional.
Por alguns minutos, parecia que havíamos atravessado um portal. Deixado para trás o universo da loucura, aquele em que o estranho virou rotina, o absurdo deixou de causar espanto e aquilo que deveria nos incomodar passou a fazer parte da paisagem.
Um mundo onde a mentira encontra versões, a corrupção encontra justificativas, o vício encontra tolerância e pequenas concessões são tratadas como coisas sem importância. Até que percebemos o tamanho do mundo construído a partir delas.
Mas aquelas crianças estavam em outro lugar.
Cantando.
Sem conhecer nossas desculpas, nossas conveniências ou os atalhos que, tantas vezes, parecem inofensivos quando começam.
E foi justamente isso que tornou aquela cena tão poderosa.
Crianças cantando um hino deveria ser algo absolutamente normal. Mas vivemos tanto tempo no universo da loucura que o normal começou a parecer estranho.
Aquelas vozes nos lembraram que existe outra realidade possível. Não um mundo perfeito, porque ele não existe. Mas um mundo em que algumas coisas ainda significam exatamente aquilo que deveriam significar.
Onde caráter não seja confundido com ingenuidade. Onde honestidade não cause surpresa. Onde fazer o certo não seja tratado como ato de coragem.
É isso que uma creche também inaugura: uma possibilidade.
Aquelas crianças ainda vão descobrir o mundo. Vão aprender, escolher e, um dia, participar da construção da realidade que encontrarem.
A pergunta é: o que estará esperando por elas?
O universo da loucura que fomos construindo aos poucos?
Ou aquele outro mundo que, por alguns minutos, parecia ter atravessado aquele salão junto com elas?
O futuro não precisa ser descoberto.
Precisa ser escolhido.

