Coragem não se terceiriza

Editorial
Guaíra, 11 de setembro de 2026 - 07h59

Há coisas que podem ser terceirizadas. A coragem não deveria ser uma delas.

Mas fica uma pergunta no ar: será que alguém não está terceirizando a própria coragem?

A pergunta surge quando alguém de fora chega para assumir um confronto que poderia ser travado por quem conhece de perto a realidade, as pessoas e as circunstâncias envolvidas.

Uma denúncia pode e deve ser apurada. Se existem suspeitas sobre dinheiro público, que sejam apresentados documentos, feitas perguntas, ouvidos os envolvidos e esclarecidos os fatos. Se houver irregularidade, que os responsáveis respondam por ela. Se não houver, que isso também seja demonstrado.

Isso é fiscalização. Isso é democracia.

Mas a questão principal é outra.

Não está apenas em quem fala, mas em quem escolhe não falar. Não está apenas em quem aparece, mas em quem prefere permanecer nos bastidores enquanto outra pessoa assume a frente.

Porque a covardia, às vezes, encontra uma maneira engenhosa de se esconder: terceiriza o confronto.

Um faz a pergunta. Outro enfrenta a resposta. Um aparece. Outro permanece distante.

E assim fica muito mais fácil.

Só que coragem não funciona por procuração.

Quem tem uma dúvida, pergunta.

Quem tem uma suspeita, investiga.

Quem tem uma prova, apresenta.

E quem tem uma posição deve ter também a disposição de sustentá-la.

Porque assumir uma posição significa aceitar o contraditório. Significa ouvir aquilo que talvez não se queira ouvir. Significa permanecer de pé quando a resposta vier. Significa colocar o próprio nome naquilo que se diz.

Não se trata de impedir denúncias. Muito menos de proteger quem quer que seja da fiscalização.

Trata-se de lembrar que denunciar e assumir a responsabilidade pelaquilo que se denuncia são coisas inseparáveis.

Guaíra deve ter fiscalização, transparência e debate. Deve haver gente disposta a questionar, cobrar e apontar, sem medo, aquilo que precisa ser corrigido.

Mas também deve haver coragem para fazer isso de frente.

Porque existe uma diferença entre buscar a verdade e procurar alguém para travar a batalha que você não quer enfrentar.

Uma diferença entre convicção e conveniência.

Entre coragem e estratégia.

No final, talvez seja simples assim: quem acredita no que diz não precisa esconder a própria voz atrás da voz de ninguém.

Pode até mandar alguém falar.

Pode até encontrar quem aceite enfrentar o confronto.

Mas há uma coisa que ninguém consegue terceirizar sem deixar uma pergunta no ar:

a responsabilidade pela própria coragem.

E algumas coisas podem, sim, ser delegadas.

A própria coragem, não.


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