Há coisas que podem ser terceirizadas. A coragem não deveria ser uma delas.
Mas fica uma pergunta no ar: será que alguém não está terceirizando a própria coragem?
A pergunta surge quando alguém de fora chega para assumir um confronto que poderia ser travado por quem conhece de perto a realidade, as pessoas e as circunstâncias envolvidas.
Uma denúncia pode e deve ser apurada. Se existem suspeitas sobre dinheiro público, que sejam apresentados documentos, feitas perguntas, ouvidos os envolvidos e esclarecidos os fatos. Se houver irregularidade, que os responsáveis respondam por ela. Se não houver, que isso também seja demonstrado.
Isso é fiscalização. Isso é democracia.
Mas a questão principal é outra.
Não está apenas em quem fala, mas em quem escolhe não falar. Não está apenas em quem aparece, mas em quem prefere permanecer nos bastidores enquanto outra pessoa assume a frente.
Porque a covardia, às vezes, encontra uma maneira engenhosa de se esconder: terceiriza o confronto.
Um faz a pergunta. Outro enfrenta a resposta. Um aparece. Outro permanece distante.
E assim fica muito mais fácil.
Só que coragem não funciona por procuração.
Quem tem uma dúvida, pergunta.
Quem tem uma suspeita, investiga.
Quem tem uma prova, apresenta.
E quem tem uma posição deve ter também a disposição de sustentá-la.
Porque assumir uma posição significa aceitar o contraditório. Significa ouvir aquilo que talvez não se queira ouvir. Significa permanecer de pé quando a resposta vier. Significa colocar o próprio nome naquilo que se diz.
Não se trata de impedir denúncias. Muito menos de proteger quem quer que seja da fiscalização.
Trata-se de lembrar que denunciar e assumir a responsabilidade pelaquilo que se denuncia são coisas inseparáveis.
Guaíra deve ter fiscalização, transparência e debate. Deve haver gente disposta a questionar, cobrar e apontar, sem medo, aquilo que precisa ser corrigido.
Mas também deve haver coragem para fazer isso de frente.
Porque existe uma diferença entre buscar a verdade e procurar alguém para travar a batalha que você não quer enfrentar.
Uma diferença entre convicção e conveniência.
Entre coragem e estratégia.
No final, talvez seja simples assim: quem acredita no que diz não precisa esconder a própria voz atrás da voz de ninguém.
Pode até mandar alguém falar.
Pode até encontrar quem aceite enfrentar o confronto.
Mas há uma coisa que ninguém consegue terceirizar sem deixar uma pergunta no ar:
a responsabilidade pela própria coragem.
E algumas coisas podem, sim, ser delegadas.
A própria coragem, não.

