Talvez um dos nossos maiores problemas não seja discordar. Seja não suportar aquilo de que discordamos.
Vivemos cercados de espelhos. Pessoas que pensam como nós, defendem as mesmas ideias, enxergam o mundo por ângulos parecidos. E há certo conforto nisso. Afinal, é sempre agradável encontrar alguém que devolva a imagem que esperamos ver.
O problema começa quando aparece alguém que não reflete nada disso.
É quando o diferente deixa de ser apenas diferente e passa a ser errado. Quando uma opinião contrária vira ignorância. Quando uma escolha que não compreendemos parece, automaticamente, uma escolha ruim.
Talvez seja por isso que a frase de Caetano Veloso tenha atravessado décadas sem perder a força: “É que Narciso acha feio o que não é espelho”.
Narciso não precisava conhecer o outro para rejeitá-lo. Bastava que não encontrasse nele o próprio reflexo.
E talvez façamos algo parecido, todos os dias, sem perceber.
Nas redes sociais, escolhemos quem confirma nossas certezas. Nas conversas, muitas vezes ouvimos menos para compreender e mais para preparar a resposta. No debate, confundimos convicção com verdade e diferença com ameaça.
O espelho é confortável.
Ele não contradiz. Não provoca. Não nos obriga a rever nada. Apenas devolve aquilo que já acreditamos ser.
A vida, porém, acontece fora do espelho.
É lá que estão as ideias que não são nossas, as histórias que não conhecemos, as pessoas que enxergam o mesmo mundo por outra janela. E, vez ou outra, está também aquilo que mais evitamos encontrar: a possibilidade de estarmos errados.
Porque o mundo não foi feito para funcionar como espelho.
E talvez o problema de Narciso nunca tenha sido gostar demais da própria imagem.
Talvez tenha sido acreditar que ela era a única que merecia ser vista.

