A Estética do Vazio

Editorial
Guaíra, 4 de setembro de 2026 - 08h02

Já reparou nisso? Durante muito tempo, a gente mediu o sucesso das festas, e até da própria vida, pelo tamanho do que conseguia mostrar. Era o arranjo de flores mais alto, o buffet mais sofisticado, a carreira impecável vista de longe, a coleção de troféus cuidadosamente exposta. Como se fosse preciso construir um cenário grandioso para fazer a vida parecer maior.

Mas será que não está na hora de mudar a mira? Passamos tempo demais tentando construir uma vida bonita para ser vista e pouco tempo perguntando se ela é, de fato, boa de ser vivida. Porque existe uma diferença silenciosa entre ocupar os espaços da vida e encontrar sentido dentro deles. Nem sempre aquilo que impressiona do lado de fora consegue preencher o que falta por dentro.

O excesso, convenhamos, cansa. Andamos cercados por estímulos, imagens perfeitas e uma cobrança permanente para transformar cada momento em vitrine. Até a felicidade parece ter adquirido uma obrigação de desempenho. É preciso mostrar que estamos bem, que conquistamos, que viajamos, que celebramos, que tudo está no lugar. Só que, quando tudo precisa ser exibido, até aquilo que deveria ser íntimo começa a perder o significado.

É aí que aparece a tal estética do vazio. Muito cenário, muita fachada, muita coisa cuidadosamente preparada para impressionar, mas pouca vida de verdade habitando o espaço. É quando o banquete é impecável, mas ninguém conversa à mesa. Quando a fotografia é perfeita, mas o instante que ela registra passou sem ser realmente vivido. Quando existe muito para mostrar e quase nada para contar.

Alguma coisa parece estar mudando de rumo. Aos poucos, a necessidade de ter e parecer vai cedendo espaço à urgência de sentir e viver. Não se trata de rejeitar conquistas, conforto ou beleza. Trata-se de não permitir que eles ocupem o lugar daquilo que realmente importa. Há coisas que podem ser compradas, fotografadas e exibidas, mas nenhuma delas garante que um momento tenha sido verdadeiramente vivido.

O luxo de hoje é outro. É ter tempo sem precisar justificá-lo, uma conversa que não precisa virar postagem, uma mesa onde as pessoas ainda se olham enquanto conversam e a liberdade de estar presente sem pensar no próximo registro. É poder viver um momento sem a preocupação de transformá-lo em lembrança antes mesmo que ele termine. Às vezes, o melhor momento é justamente aquele que ninguém registrou.

No fundo, a pergunta mais importante também mudou. Já não é tanto o que os outros acham do nosso cenário, mas o que existe dentro dele quando ninguém está olhando. Porque fachadas envelhecem, fotografias ficam esquecidas e troféus acumulam poeira. No fim, o que dá sentido ao cenário não é aquilo que aparece nele, mas aquilo que aconteceu ali.


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