Quem não se lembra do Seu Saraiva, personagem de Francisco Milani? Bastava alguém fazer uma pergunta cuja resposta era óbvia para ele disparar: “Pergunta idiota, tolerância zero!”. O público caía na gargalhada. Era engraçado porque o exagero fazia parte da comédia. O curioso é que, anos depois, a intolerância deixou de precisar de um roteiro.
Hoje, basta uma pergunta para provocar uma guerra. Discordou? Está atacando. Perguntou? Está duvidando. Ficou em silêncio? Alguma coisa está escondendo. Parece que entramos numa espécie de paranoia coletiva em que até a ausência de uma resposta desperta suspeitas.
E há algo ainda mais estranho: algumas pessoas já entram numa conversa procurando uma ofensa. Se não a encontram nas palavras, procuram no tom. Se não está no tom, está na intenção. O importante é sair com uma acusação, nunca com uma dúvida.
Talvez exista algo escondido atrás de tanta valentia. Uma simples reflexão pode colocar em xeque convicções construídas durante anos. E uma dúvida, que poderia abrir uma boa conversa, acaba se transformando em disputa. Afinal, há pessoas dispostas a perder uma amizade, mas não uma discussão.
Chegamos ao ponto de exigir compreensão sem correr o risco de compreender. Para alguns, conversar virou apenas esperar o outro terminar de falar para continuar tendo razão. E confundimos o direito de ter opinião com a obrigação dos outros de concordar conosco.
Na televisão, Seu Saraiva se irritava quando a resposta era óbvia. Na vida real, parece que muita gente se irrita justamente quando a pergunta é boa demais. Surgem as acusações, as interrupções, os ataques. O barulho aumenta, a conversa se perde e cada um vai embora convencido de que tinha razão.
Mas algumas perguntas não vão embora. Continuam ali, mesmo depois que a discussão termina.
Porque, afinal, a consciência sempre terá algo a dizer.

