Você já parou para pensar no valor das coisas que enfeitam a nossa rotina? A depredação do Relógio do Sol de Guaíra, instalado bem em frente à nossa Casa de Cultura e emoldurado pelo Lago Maracá, é mais do que um simples crime contra o patrimônio público. É, na verdade, um atestado de ignorância cultural e um ataque direto à identidade da nossa comunidade. Afinal, estamos falando de um lugar onde tantos de nós costumam caminhar, tirar fotos e registrar momentos com a família.
Quando alguém danifica um monumento como esse, inaugurado em 1981 pelas mãos do artista Jubileu Ferreira dos Santos, o estrago vai muito além do concreto ou do metal quebrado. O que se interrompe ali é uma linhagem histórica que começou há mais de 3.500 anos, lá no Antigo Egito, quando a humanidade aprendeu a decifrar a mecânica do universo através das sombras. É esse elo entre o passado distante e o nosso presente que foi vandalizado.
O que torna tudo ainda mais triste é saber o quão raro é esse tipo de monumento. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, existem apenas cerca de 200 relógios de sol catalogados. Cada um deles é uma obra-prima que mistura engenharia e astronomia, calculado milimetricamente para funcionar apenas naquela coordenada geográfica específica. O relógio de Guaíra é único. Não existe outro igual no planeta, pois nenhum outro lugar partilha da nossa exata latitude e longitude. Sabendo disso, fica difícil entender como alguém tem a coragem de destruir uma relíquia dessas.
O prejuízo financeiro que o vandalismo causa aos cofres municipais é revoltante, porque toda semana são gastos recursos que deveriam ir para a saúde, para a educação e para a segurança pública da nossa cidade. Mas o prejuízo moral consegue ser ainda pior. Uma sociedade que assiste passivamente à destruição de seus cartões-postais está perdendo o senso de comunidade, de pertencimento e de respeito pelo que é de todos.
É urgente que o poder público identifique e puna os responsáveis, mas a verdadeira mudança precisa começar dentro de cada um de nós. Cuidar do patrimônio de Guaíra é um dever coletivo. Que a restauração do nosso Relógio do Sol não traga apenas a marcação das horas de volta, mas também desperte em cada morador o orgulho e o zelo pela nossa própria história.

