É fácil culpar os políticos por tudo o que acontece de errado no Brasil. Difícil é reconhecer que muitos dos problemas que condenamos nos outros também estão presentes no comportamento da própria sociedade. E dois acontecimentos ajudam a compreender até onde estamos chegando.
Uma pesquisa da Fiocruz revelou que 20,4% dos idosos brasileiros enfrentam dificuldades para realizar atividades básicas, como tomar banho, vestir-se ou levantar da cama. Entre aqueles que apresentam essas limitações, apenas 37,9% recebem ajuda. São milhões de pessoas enfrentando dificuldades justamente numa fase da vida em que mais precisam de cuidado e atenção.
É evidente que muitas famílias também enfrentam dificuldades financeiras, falta de tempo e ausência de apoio público. Mas os números revelam algo que não podemos ignorar: estamos envelhecendo como população sem construir uma rede de cuidados capaz de acompanhar essa realidade.
Enquanto isso, uma investigação policial revelou um esquema de comercialização de medicamentos falsificados contra o câncer, alguns sem o princípio ativo necessário ao tratamento. Segundo os investigadores, uma dessas unidades chegou a ser administrada a um paciente. Imagine o que significa transformar a esperança de sobrevivência de alguém em oportunidade de ganhar dinheiro.
São situações diferentes, mas que nos obrigam a refletir sobre o mesmo princípio: quanto vale a vida do outro quando ela depende das nossas atitudes?
E ainda encontramos quem acredite que todos os males do país começam e terminam em Brasília. É claro que os governantes precisam responder por seus atos. Mas honestidade, respeito, responsabilidade e solidariedade não são obrigações exclusivas de quem ocupa cargos públicos.
A corrupção não começa necessariamente no gabinete de um político. Ela também encontra espaço nas pequenas desonestidades que a sociedade aprende a tolerar, justificar ou simplesmente ignorar. Na vantagem indevida, na mentira conveniente, na indiferença diante do sofrimento alheio e na velha desculpa de que todo mundo faz a mesma coisa.
De que adianta exigir honestidade dos governantes se relativizamos a nossa? De que adianta cobrar uma sociedade mais humana se fechamos os olhos quando alguém precisa de ajuda? E de que adianta apontar os erros dos outros se encontramos justificativas para os nossos?
Talvez estejamos olhando tanto para o topo da pirâmide que esquecemos de examinar sua base. Governantes têm responsabilidades maiores, porque administram recursos públicos e tomam decisões que afetam milhões de pessoas. Mas nenhuma sociedade se sustenta apenas com boas leis e bons governantes se os valores que deveriam orientá-la deixam de ser praticados no cotidiano.
Afinal, antes de perguntar que país os políticos estão construindo, talvez devêssemos perguntar que sociedade nós estamos ajudando a formar.

(“Quando a base perde a firmeza, pouco importa para onde apontam as placas.”)

